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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Entrevistas com Éric Rohmer

Interesso-me cada vez mais por entrevistas. É bom ver artistas (e gente interessante de todo tipo) respondendo espontaneamente a perguntas, questões e problemas, ouvir suas falas naturalmente, suas hesitações, gaguejares, enganos, empolgações e afins.

Se já é excelente poder ver uma entrevista bem conduzida, o prazer ainda dobra se o entrevistado é alguém que você admira, que tem muito a dizer (a você e a n'importe qui). É o caso de Éric Rohmer, cineasta historicamente alheio a aparições públicas.

Garimpando no YouTube, consegui localizar algumas especialíssimas ocasiões em que Rohmer sai da caverna e dá o ar de sua graça. E como vale a pena descobrir esses eventos! Rohmer, cineasta de gênio incrível, fala de cinema com um entusiasmo juvenil: é maravilhoso ouvi-lo relatando casos de sua carreira e de sua obra enquanto analisa seus filmes numa humilde exibição em videocassete, por exemplo; e sua alegria ao comentar os aparatos e aparelhos tecnológicos utilizados para tal ou tal efeito fílmico, do tipo de câmera usado para um determinado plano até o filtro que simula a luz específica para uma sequência cromaticamente importante!

O material que encontrei foi tão bom que não resisti a dividi-lo neste espaço, recomendando a todos que salvem bem esses vídeos antes que o YouTube mais uma vez arbitrariamente resolva se livrar de todos (por haverem infringido, como sempre, algum dos imaginários direitos sempre alegados). Além do especial (de quase duas horas) da excepcional série Cinéma de notre temps (atualização do Cinéastes de notre temps, dos anos 1960), em que Jean Douchet entrevista um recluso Rohmer em 1993 (quando estava em época de mudança de seu escritório da Films du Losange), podemos ver Rohmer em plena lucidez em 2006, poucos anos antes de morrer, entrevistado por Barbet Schroeder (seu ex-ator e produtor), além de um documentário sobre o belíssimo Conto de verão rohmeriano e mais um pequeno extrato de Rohmer dirigindo um de seus melhores filmes, A mulher do aviador. Todas as entrevistas possuem legenda em inglês.

 

Bônus: um episódio que Rohmer dirigiu da citada série Cinéastes de notre temps — bastante raro, inexistindo na internet alguns anos atrás.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Minhas influências de Resnais

Uma das melhores coisas é pesquisar influências, influenciados e influenciadores. Se há alguém em que você confia, ou um artista que você admira, procurar o mundo que cerca essa pessoa e suas bases (de pensamento) é fascinante e esclarecedor. Foi graças ao Deep Purple que eu conheci Rainbow, Blackmore's Night, Whitesnake etc. Seguindo os passos de Truffaut interessei-me pelas obras de Henri-Pierre Roché, Ray Bradbury, David Goodis, Henry James. Os exemplos abundam e abundarão, mas é difícil que alguém tenha mais "méritos" no meu garimpo cultural que o nonagenário Alain Resnais.

Resnais é, há muitos anos, uma das pessoas que mais me interessam culturalmente. Cada opinião sua, cada sugestão ou manifestação, traz à minha atenção um foco diferenciado e instigante sobre o qual me debruçar. Por se interessar por inúmeros segmentos da expressão artística humana, Resnais tem muito a falar e a mostrar em mil campos que me interessam. Vou tentar falar brevemente sobre algumas coisas que procurei e consumi graças ao velho Alain.

Cinema

Além de seus magníficos filmes, Resnais abriu minha cabeça em muitos outros campos. Os roteiristas de seus primeiros longas (Marguerite Duras e Alain Robbe-Grillet) viraram também cineastas e fui atrás de seus filmes. De Duras, vi Nathalie Granger e Le camion. De Robbe-Grillet, o excelente La belle captive, que me hipnotizou já em seus momentos iniciais. E seu antigo parceiro Chris Marker? Quem conferir La jetée e Sem sol, entre outros, só terá a agradecer o prazer de ter olhos.

Além disso, seu carinho e atenção para com os atores de seus filmes me fez empolgar-me não só com sua "turma" habitual (Sabine Azéma, André Dussollier e Pierre Arditi) como abriu meus olhos para intérpretes como Lambert Wilson, Claude Rich, Isabelle Carré, Mathieu Amalric, Delphine Seyrig, Geraldine Chaplin, Emmanuelle Riva. O critério é simples e quase sempre funciona: se Resnais utilizou tal ator, tal ator é uma pessoa a se notar. O faro resnaisiano virtualmente nunca se engana.

E há o casal Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri, que não apenas roteirizaram dois filmes de Resnais (Smoking / No smoking e Amores parisienses) como co-estrelaram um. A dupla depois passou a atuar em, roteirizar e até dirigir outros filmes. É preciso ver seus filmes e obras. E eu sequer os conheceria, não fosse por Resnais e sua generosidade em usar dois jovens roteiristas para escreverem dois de seus filmes, entre quinze e vinte anos atrás.

Quadrinhos

 Resnais é um grande amante de quadrinhos. Foi um dos fundadores na França da Sociedade dos amigos dos quadrinhos (Société des amis de la bande dessinée), e a todo instante deixa nítido esse amor pelas HQ. Um de seus mais divertidos filmes, I want to go home, é simplesmente uma ilustração desse carinho pela arte sequencial. Para roteirizar essa obra, Resnais chamou ninguém menos que o grande quadrinista americano Jules Feiffer. E é difícil não se empolgar com as constantes referências a Schulz, a Caniff e outros mestres dessa arte, e também é difícil não se interessar pelo Popeye de Segar (com direito a Depardieu fazendo cosplay do personagem numa cena) e pelo próprio Feiffer, que também envereda pela animação (!), criando "consciências animadas" das personagens do filme.

É ótimo ver um desses respeitados intelectuais como Resnais abraçando causas como a que versa a não-demonização dos quadrinhos. Resnais chegou a declarar que um de seus grandes sonhos irrealizados é fazer a adaptação cinematográfica dos X-Men! Sua sincera apreciação pela "banda desenhada" é um alento e um farol: então também preste-se a devida referência a suas dicas nessa área! (E divirtamo-nos com as brincadeiras do diretor, como a abertura de Smoking / No smoking).

Literatura

Uma das marcas iniciais de seu cinema era trazer roteiros originais feitos por escritores profissionais, sem experiência na confecção cinematográfica. Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet, Jacques Sternberg, Jorge Semprún, Jean Cayrol, alguns dos nomes com que trabalhou nesse período, são nomes relevantes e importantes para qualquer estudo da literatura contemporânea francesa (ou mundial). Ir atrás dos romances de Duras e das obras e roteiros de seus colegas "resnaisianos" é adentrar um mundo de infinitas possibilidades literárias e formas diferentes de se exprimir e impressionar.

Há também que se destacar o dramaturgo Alan Ayckbourn, a quem Resnais sempre se volta, e o caso inédito de Christian Gailly, autor de L'incident, único romance adaptado por Resnais (e agora Resnais também vem escrevendo em parte seus filmes), origem de seu belo Ervas daninhas. Ainda não li Ayckbourn, mas encomendei e li L'incident, excepcional relato detentor de uma voz absolutamente ímpar, que eu nunca havia realmente visto na ficção escrita.

Música

O filme Amores parisienses é todo ele composto de canções populares francesas, indo de Piaf a Gainsbourg, de Alain Souchon a Jacques Dutronc. Foi nesse filme que eu tive meu primeiro contato com France Gall e com o maravilhoso Julien Clerc, compositor de vitalidade e talento estupendos, totalmente obscuro no Brasil e a quem eu jamais iria chegar não fosse por Resnais. Graças a ele e a esse encantador filme, todo um mundo da canção francesa, longe dos tradicionais eixos "de exportação" (ainda que haja Aznavour e congêneres), apareceu para mim e eu descobri até mesmo verdadeiros mitos de que simplesmente não se fala no Brasil, como Claude François.

Além disso, os compositores originais de seus filmes. Mark Snow, "anônimo" autor da música-tema de Arquivo X, trabalhou mais de uma vez com Resnais e cunhou pérolas que podem ser ouvidas por exemplo aqui (e no trailer abaixo colocado); o célebre Penderecki compôs para Eu te amo, eu te amo; Hiroshima mon amour tem trilha de Giovanni Fusco e do genial Georges Delerue, famoso por sua parceria com Truffaut e pela música de O desprezo.
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Poderia ainda falar do desejo de conhecer pintura e pintores que seus curtas Van Gogh, Guernica e tantos outros despertam, mas não posso me estender mais na louvação: basta procurar os filmes de Alain Resnais, o interesse vem naturalmente a partir daí. Apenas resta agradecer ao cinema por ter acolhido esse grande homem, que nunca desanima em fazer e disseminar coisas belas. Que viva longamente.



Atualização (01/05): Texto sobre o penúltimo filme de Resnais (e um pouco sobre sua carreira), Ervas daninhas.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sandrine Bonnaire

Durante aproximadamente cinco anos (2007-12), escrevi na Revista Zingu!, um espaço aberto à discussão de temas cinematográficos marginalizados e majoritariamente dedicado ao cinema brasileiro popular, à Boca do Lixo e aos autores e técnicos obscuros de uma porção expressiva da nossa identidade em celulóide. Durante mais de 130 (!) textos para a revista, discuti temas tão díspares como o único e incrível filme protagonizado pelo Fofão, animações da turma da Mônica e até mesmo filmes de sexo explícito! Da edição 4 até seu derradeiro número 54 participei com críticas, colunas e textos de todo tipo, desde uma análise sobre certos aspectos do clássico "O bandido da luz vermelha" até odes a musas da telona — cuja última participação minha se deu, com uma publicação conturbada por problemas de delay, em louvor à maravilhosa Natalie Wood.

Em março de 2010, fiz um extenso texto sobre um dos meus grandes amores em cinema: Sandrine Bonnaire. Eu a conheci pessoalmente em 2011, e ensaiei entregar o texto a ela. Não gosto de tudo que nele há, mas, como essa é uma das "edições perdidas" da Zingu!, que sabe-se lá se poderão voltar ao ar algum dia, colo aqui todo esse panegírico a uma das grandes figuras femininas do cinema das últimas três décadas (desatualizado, pois ela fez mais alguns trabalhos depois — inclusive dirigiu mais um longa):

Um dos sorrisos mais bonitos do mundo pertence a Sandrine Bonnaire, atriz francesa por vocação e destino, uma das presenças mais fascinantes do cinema nos últimos anos. Sandrine nasceu em fins de maio de 1967 e desde sua primeira aparição no cinema, como protagonista já em 1983, abraçou cada filme como uma mãe abraça seu filho pequeno. Este texto é uma pequena carta de admiração a uma atriz admirável, traçando breves considerações sobre seus trabalhos mais importantes, década a década.

Anos 80

Sandrine iniciou sua carreira de atriz sob um auspício favorabilíssimo: a obra-prima Aos nossos amores, de Maurice Pialat. Pialat não apenas foi o introdutor de Sandrine Bonnaire no cinema — antes ela havia feito quando muito pontas (não creditadas e nem confirmadas) em poucos filmes — mas a ajudou a se firmar como intérprete protegendo-a não só por trás como na frente das câmeras: ele fazia no filme o papel de seu pai. Sandrine saiu-se admiravelmente bem como Suzanne, jovem mulher que entra com dificuldade na vida adulta, hesitando entre o amor e o sexo, transitando entre dúvidas naturais para a idade e sua conturbada relação com a instável e agressiva família. Uma personagem difícil, que Sandrine desenvolve com espontaneidade ímpar, criando uma das maiores representações da adolescência no cinema. O magnífico desempenho da jovem francesa a coloca em evidência em revistas, jornais, críticas, projetos de novos filmes.

Ocorre que o cinema não costuma entender ou aceitar atores jovens, portanto Sandrine acaba fazendo alguns filmes que não a valorizam: Tir à vue e Le meilleur de la vie são exemplos de produções que apostam apenas no superficial — a nudez do belo corpo juvenil de Sandrine Bonnaire —, o que talvez explique o pudor de Sandrine nos anos seguintes, onde quase não se expõe fisicamente em filme algum, sob nenhum pretexto. A menina — ela tem por volta de dezesseis anos nessa época — parece então despontar de vez e recebe convites irrecusáveis, de grandes diretores: assim, em poucos anos trabalha com Agnès Varda — para quem faz a inesquecível composição da protagonista de Os renegados, moça pária em uma descompassada sociedade contemporânea —, com Jacques Doillon (em A puritana, ao lado de Sabine Azéma e Michel Piccoli), com André Téchiné (em Os inocentes, junto a Jean-Claude Brialy, figura tarimbada nos filmes nouvellevaguistas), com Claude Sautet (em Quelques jours avec moi, formando um charmoso casal com Daniel Auteuil e dividindo a cena também com Danielle Darrieux e Jean-Pierre Marielle), e novamente com seu padrinho Maurice Pialat, em dois filmes junto a Gérard Depardieu; em Polícia ela tem presença curta e marcante, mas em Sob o sol de Satã o espetáculo é quase todo dela: sua Mouchette é um grande momento dramático e certamente sua desenvoltura segura e honesta foi um dos trunfos que fez esse polêmico filme questionador da fé realizado por Pialat sagrar-se vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Em 1989 ela faz dois filmes: o pouco comentado Peaux de vaches, no qual se relaciona, com certa desconfiança inicial, com Jean-François Stévenin — ator e ajudante de François Truffaut —, um filme cheio de barulhos de máquinas e pequenos sentimentos acobertados por uma espécie de desconforto social; e Monsieur Hire, uma obra-prima de Patrice Leconte baseada em um romance do brilhante Georges Simenon. Em Monsieur Hire, Sandrine co-protagoniza, ao lado de Michel Blanc (excelente no papel-título), uma trama mais sentimental que policial, onde o maior crime (e perigo) é se apaixonar. Sua Alice é tão erótica e dúbia quanto a da obra literária, mas a doçura de Sandrine é tanta que faz o espectador sempre ficar de seu lado e perdoar seus erros, aceitar suas mentiras. É o filme em que Sandrine está mais linda em toda a sua filmografia; além de a fotografia destacar cada um de seus trajes, femininos e sugestivos, Sandrine está com os cabelos louros (a personagem literária é ruiva), a aparência jovem, alegre e entusiasmada, o corpo esculpido de maneira sublime. A cena em que aparece apenas de calcinha e sutiã se trocando defronte à janela onde Michel Blanc a espia e escuta Bhrams é a mais perfeita do filme e provavelmente a melhor já filmada por Leconte em sua carreira. O filme acabou servindo como um tributo tardio a Simenon, morto naquele mesmo ano.

Anos 90
 
Década prolífica para Sandrine Bonnaire, iniciada com La captive du désert. Trata-se da história (real) de uma francesa que ficou refém de uma tribo africana por meses e meses. O filme não introduz nada, não há diálogos muito aprofundados, os silêncios, olhares e as extensas repetições dão conta do marasmo a ser retratado e alcançado. Dirigido pelo famoso fotógrafo Raymond Depardon, se assemelha a um documentário da National Geographic, filmado à distância com uma câmera de longo alcance. A sensação de "verdade" da obra é enorme, inacreditável; se o espectador não conhecer Sandrine Bonnaire, se for o primeiro filme que vir com ela, provavelmente terá plena certeza que vê um documentário. Mesmo porque o restante de elenco é tribal de fato, e o filme é consideravelmente voyeurístico, bem pouco aproximado, iniciando-se já com a situação montada — sem sequer mostrar o que houve para a mulher ser capturada.

Em seguida, Sandrine tem encontros muito importantes: o primeiro é com Marcello Mastroianni, em Verso sera, produção italiana de sentimentalismo aflorado pela presença do inesperado casal formado pelo velho Marcello e pela jovem e bela Sandrine. O segundo é com William Hurt, com quem viria inclusive a ter uma filha, de nome Jeanne; o casal esteve junto em A peste, adaptação do célebre romance de Albert Camus, espécie de fábula apocalíptica voltada na verdade para desencontros afetivos, e em Confidências a um estranho, drama de época em que o fantasma incômodo da aristocracia reina sobre personagens embrutecidos pelas circunstâncias. O terceiro encontro é com Jacques Rivette, com quem faz três belíssimos filmes: Jeanne la Pucelle é uma obra bipartida sobre a santa heroína Joana d’Arc, sendo a primeira parte sobre as batalhas que liderou (Les batailles) e a segunda, sobre sua prisão como herética (Les prisons) — a expressão de Sandrine é mesmo a de uma figura etérea, imaterial, que tem uma missão a cumprir, e é indizível o grau de perfeição de sua representação na cena da condenação, com a luz mudando, o olhar de hesitação, o texto agressivo, a abjuração, o sorriso quando ri das acusações... —; Defesa secreta é um filme de encenação majestosa e atuações sutis, dramas íntimos e poderosos, num trabalho meticuloso mas apaixonado, como de costume nas fitas do diretor; e Sandrine mais uma vez tem um desempenho ímpar, numa personagem que vai praticamente se metamorfoseando moralmente ao longo da obra. O quarto encontro importante é com Claude Chabrol, que dirige Sandrine em dois momentos muito especiais: Mulheres diabólicas é a celebração das “mulheres perversas” chabrolianas, onde Sandrine e Isabelle Huppert dividem a cena e as maldades, arrepiando o espectador com sua frieza e psicopatia; A cor da mentira é um belo estudo à Fritz Lang sobre o que um boato, verdadeiro ou não — o marido de Sandrine é acusado de ter assassinado uma garotinha —, faz à vida e à reputação de uma pessoa fraca, que tem de encontrar forças para conviver com a culpa e o remorso de uma atrocidade cometida sabe-se lá por quem.

A década ainda traz a Sandrine um reencontro, com uma de suas figuras “descobridoras”, Agnès Varda: Sandrine faz uma participação afetiva em As cento e uma noites, relembrando personagens anteriores, principalmente a moça desajustada de Os renegados — o filme que rendeu o Leão de Ouro a Varda dez anos antes, criação emblemática para Sandrine e uma de suas principais marcas de maturidade como atriz. Esse reencontro tem lugar portanto em 1995, e nele também Sandrine contracena novamente com Michel Piccoli (com quem trabalhara na década anterior em La puritaine), o que aumenta o ar familiar da carinhosa homenagem prestada por Varda a essa cada vez mais completa jovem atriz francesa.

Entre as outras obras que contaram com a participação de Sandrine nessa década o destaque vai para Leste-Oeste – O amor no exílio, mais uma produção elogiada do irregular Régis Wargnier (o diretor de Indochina). Não chega a ser um trabalho excepcional, pois esbarra na preguiça acadêmica costumeira do cineasta, mas é com esse filme que Sandrine encerra a década de 1990, sua década mais produtiva, na qual se permitiu experimentalismos em outros países e gêneros cinematográficos.

Anos 2000
 
 Mais um período de intenso trabalho para Sandrine Bonnaire — interrompido em 2004 quando teve sua segunda filha, Adèle, com o roteirista Guillaume Laurant (seu marido desde 2003). Os filmes em que atua nesta fase são caracterizados por produções modestas, muitas vezes de cineastas neófitos e com elenco desconhecido. O primeiro deles é Mademoiselle (não confundir com o filme de mesmo nome dirigido em 1966 por Tony Richardson, com Jeanne Moreau), história leve de um romance fugaz. Sandrine não fazia muitas comédias no início de sua carreira, o que vem paulatinamente mudando. Mademoiselle não é um filme de humor, mas um filme de amor, portanto tem uma doçura que escapa a quem não entende esse sentimento. O filme seguinte, C’est la vie, tem um tom mais sombrio, ainda que o filme seja bastante claro e alegre na superfície; trata-se de uma esforçada Sandrine Bonnaire, desapegada e alegre, convivendo com a morte dos outros, numa narrativa delicada e que ainda tem o grande ator e cantor Jacques Dutronc co-protagonizando o filme com a francesa (e cantando com ela!).

 Após uma participação no Femme fatale de Brian de Palma, Sandrine volta a trabalhar com outro “descobridor” seu: Patrice Leconte. Em mais um belo trabalho autoral, Confidências muito íntimas, considerável sucesso de público e crítica. No filme de Leconte, os personagens se cruzam por acaso, e, dependentes emocionais, se relacionam à distância, mesmo em pensamentos. Confidências tornou-se um dos mais celebrados (e conhecidos) filmes com Sandrine Bonnaire fora da França, e é co-estrelado pelo ator rohmeriano Fabrice Luchini.

Os filmes seguintes não provocam muita repercussão e nem sequer foram lançados no Brasil: Le cou de la girafe é uma parceria interessante entre Sandrine e Claude Rich, personagens estremecidos por desencontros provocados pela inocência infantil de uma pequena menina, filha de Sandrine; L’équipier traz um amor conturbado entre uma mulher casada e um homem misterioso numa comunidade campesina situada numa região afastada e cujo único diferencial é um obscuro farol; Je crois que je l’aime é outra comédia romântica, açucarada na medida adequada para permitir a Sandrine interpretar sua personagem com desenvoltura e segurança; em Demandez la permission aux enfants as crianças é que tomam o controle de tudo, criando situações embaraçosas e forçando seus pais a intervirem de maneira curiosa e engraçada; Un coeur simple é uma adaptação do conto homônimo de Gustave Flaubert, com Sandrine fazendo o papel da servil Félicité, tão embrutecida quanto na história original e com uma nobreza tão pouco compreendida quanto; L’empreinte de l’ange mostra a agonia de uma mãe com uma estranha se aproximando da filha (mas talvez os papéis não sejam exatamente esses); Joueuse traz Kevin Kline em seu primeiro papel francófono e contracenando com Sandrine Bonnaire em seu último filme até a data, neste trabalho em que os protagonistas fazem do xadrez e da cultura uma maneira de se conhecerem e respeitarem.

Curiosamente, o trabalho mais importante da década para Sandrine, por razões profissionais e pessoais, não foi um filme em que atuou como atriz, mas um documentário dirigido por ela mesma: Ela se chama Sabine é um delicado retrato de sua irmã (a moça do título), jovem autista que teve sua situação física e mental agravada pela ignorância, negligência e imperícia do atendimento médico a que foi submetida. Por um lado é uma história alegre, porque mostra o amor de Sandrine por sua irmã, cenas da família reunida e feliz, décadas atrás; mas também é triste, quando mostra a degradação acentuada de Sabine e seu estado beirando a total inconsciência mental em certos momentos. Aos interessados em ver este doloroso filme-tributo, existe na rede virtual, em programas de compartilhamento, uma versão que traz de bônus um programa de televisão em que Sandrine foi convidada a comentar o filme e debater o assunto do autismo com especialistas da área médica, o que faz com veemência e sinceridade. Sandrine, por sinal, tem respeitável histórico ativista no assunto do autismo, chegando inclusive a se reunir oficialmente com Nicolas Sarkozy para discutir o tema.

Sandrine ganhou vários prêmios em sua carreira, sendo os mais importantes o César (duas vezes: como revelação por Aos nossos amores e como atriz por Os renegados) e o troféu de melhor atriz em Veneza (por Mulheres diabólicas, honraria dividida com Isabelle Huppert pelo mesmo filme). Também foi indicada e premiada outras inúmeras vezes. Porém o mais importante para ela não é colecionar estátuas ou placas, mas alcançar com suas atuações diferentes níveis de expressividade, de sensibilidade, de comunicação. Sandrine Bonnaire é uma atriz apaixonante porque é uma mulher apaixonante.

Bônus: alguns vídeos com momentos marcantes de Sandrine Bonnaire.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Brigitte Bardot

Nos últimos anos, escrevi pequenos comentários acerca da maior parte dos filmes e livros etc. que consumi. Quase tudo postei em redes sociais, que dispõem de uma memória muito curta; para esses textos não se perderem, penso em postá-los aqui, aos poucos. Para começar, minhas impressões sobre o primeiro volume das memórias de Briggite Bardot, impressões escritas dias 5 e 6 de outubro de 2011:  

Iniciais BB - Brigitte Bardot 

 Eu adoro a BB, de verdade. 

Mas há anos ela é muito impopular; nem tanto pelos filmes (mas ainda a subestimam como atriz), mas pelas suas controversas opiniões sobre imigrantes na França, homossexuais e todo o reacionarismo político de que ela é sempre acusada, além de seu alegado fanatismo na defesa da causa animal. 

Não que isso seja de todo mentira (ou de todo verdade), mas este livro de memórias é uma péssima propaganda. 

Para começar, ela não escreve bem. Paragrafação aleatória, uso excessivo de pontos de exclamação (!), enxurrada de advérbios e adjetivos — frases como "foi comovente, extraordinário, único e inesquecível" acabam cansando a leitura, criando uma certa confusão. 

Além disso, ela muitas vezes parece incoerente, quando reclama de algo que depois elogia, ou quando fala que os pais lhe deixaram marcas de um certo abandono afetivo, depois contrariando tudo com exemplos diversos. Quando não é pura e simplesmente hipócrita: reclama da frouxidão de valores e da sexualização dos costumes e a cada página parece ter um homem diferente debaixo dos lençóis; obcecada com animais, reclama de seu abandono e a todo instante vocifera contra a maternidade, confessa seu estranhamento com o filho, não fala dele com grande carinho e depois simplesmente deixa de falar nele, após confessar sem muito remorso seus vários abortos (chegando a desejar e tentar ter abortado seu único filho também) — o filho foi viver com a família do pai. 

Falando em páginas, é realmente difícil acompanhar quase SEISCENTAS páginas (com um livro grande de tamanho, ou seja, virtualmente umas mil páginas "reais"!) com tanta crítica, tanto negativismo, tanta intransigência, carência, raiva, tristeza. Com o pretexto de ser intensa, ela se revela simplesmente desagradável! Parece que reclama por qualquer coisa, zanga-se por nada, quer se matar por picuinhas e leva tudo de maneira extrema. Quando não parece simplesmente fútil, mimada, ridícula. 

O livro é bem desinteressante. Ela só comenta trivialidades, seus amigos próximos, suas desilusões amorosas, sua extrema e por vezes bizarra carência. Tem um estilo repetitivo, como nas inúmeras vezes que cita um acontecimento ou fato e declara: "desde essa época, eu...", "por isso, a partir de então eu nunca mais..."... 

Sobre cinema, a impressão é péssima. Fala marginalmente (quando muito) dos filmes, revelando uma tremenda falta de paixão pelo ofício que exercia, fazendo muitas vezes os filmes de qualquer maneira, amaldiçoando quando aceitou fazê-los. Fala um pouco sobre Clouzot, Godard, Deville, mas sem qualquer competência.

Descobri, no meio da leitura (que me tomou mais de um mês!), que essa é na verdade a PRIMEIRA parte de suas memórias, concluídas depois com um segundo volume. Não sabia disso, e creio que não saiu a tal conclusão no Brasil. Mas acho que não gostaria de ler, de qualquer modo. Iniciais BB cobre todo o período que me interessa na vida dela, do nascimento até sua precoce aposentadoria, aos trinta e oito anos. 

Enfim, livro decepcionante. Melhor mesmo ver os filmes — e não todos, já que essa falta de alegria em submeter-se a atuação é visível em muitos dos medíocres ou ruins trabalhos que ela aceitou fazer "por osmose"... 

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Esqueci de falar de um dos grandes temas do livro: a celebridade. O pavor da Brigitte pelos fotógrafos, jornalistas e repórteres invasores de sua privacidade, e os artifícios, tramoias e guerrilhas praticadas contra sua intimidade. Uma das histórias mais inacreditáveis ela conta no fim do livro: foi visitar uma amiga no hospital, com óculos escuros e xale (para despistar a imprensa, que a seguia sempre em todos os lugares, sem trégua), e no dia seguinte saiu no jornal uma notícia de que ela foi incógnita naquele hospital fazer uma intervenção estética no rosto. Ela ficou fula, se não desmentisse isso nunca a deixariam em paz com essa história, então acionou seu advogado e conseguiu o seguinte acordo: uma comissão de médicos e os advogados dela e do paparazzo verificariam numa cerimônia marcada se ela foi paciente de plástica, analisando, defronte um juiz, suas pálpebras, bochechas, costas das orelhas etc.

A vida absurda sem liberdade é uma coisa tocante, e a histeria mundial sobre ela não difere do que se apresenta com as celebridades de hoje.

P.S.: Fiz por essa época, com informações do livro, um Musas Eternas dedicado à Briggite.

E como um bônus, para lembrarmos de como ela já foi encantadora de verdade, este clipe.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ciência é ficção

Ao contrário de gente que só se entusiasma com coisas "épicas" (no sentido bem batido e questionável do termo), sou daqueles que acha que coisas por muitos consideradas inócuas podem ser bem mais fascinantes que espetáculos artificiais. Então eu gostaria de tentar fazer um pouco de justiça a um grande "mostrador" dessa beleza que está sempre aí para vermos e no entanto nunca a conseguimos enxergar: Jean Painlevé. Um grande registrador, que passou boa parte de seus quase noventa anos a perenizar em dezenas de momentos certas imagens de insuspeita perfeição.

Quando se fala em registro da vida submarina, só lembramos de Jacques Cousteau. E esquecemos deste homem, que retratou em curtas e médias metragens apaixonantes tudo que se pode falar de belo e impressionante dessas criaturas que estão todos os dias vivendo suas vidinhas molhadas. Ver seus filmes é sair encantado pela vida, pelas coisas que acontecem e não nos damos conta, é se embasbacar com as texturas, as cores e os movimentos pulsantes de seres que ignoramos ou fingimos desconhecer (ou, pior, desconhecemos realmente).

Na verdade, Jean Painlevé não filmou apenas seres aquáticos. De pombos a morcegos, esse visionário artista-cientista passeou pelos céus, pela cena política francesa/europeia/mundial e até filmou uma experimental cirurgia canina! Mas quando ele filmava medusas, polvos, cavalos-marinhos, pólipos, anêmonas, camarões e ouriços é que estava em seu máximo da expressão: são documentos tão seminais para o estudo e compreensão desses seres como certas obras de Norman McLaren e Carlos Saura o são para a música e o ballet.

Por mais que seja sempre um prazer ver essas criaturas tão distantes de nós (em constituição e em geografia) nos canais da televisão, nas páginas lindamente fotografadas da National Geographic e nos inúmeros documentários já feitos sobre elas, observar a obra de Jean Painlevé é sentir o gosto novo e saboroso de um novo mundo (por vezes) estranho e fortemente impressionante; uma comparação mais ou menos adequada se me afigurou agora: Jean Painlevé era um pouco o Winsor McCay do cinema documental, e nós somos seu Little Nemo percorrendo reinos e sonhos de encanto e desconhecido.