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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Columbo

Tramas policiais muitas vezes sofrem com a desonestidade dos whodunits; ora, se todos, a todo instante, podem ser criminosos, o desenvolvimento das personagens é uma aleatoriedade e preza-se simplesmente a surpresa, a revelação. É algo um tanto desonesto, basta pensar nas novelas televisivas que, quando reprisadas, mudam o culpado original. É qualquer coisa, sem critério.

Columbo é diferente dessa rotina de convenção. A cada episódio (ou telefilme), o espectador acompanha, no início, o iter do criminoso, o que ele faz até chegar ao assassinato. Acompanhamos a execução passo a passo (ao longo das décadas de exibição, houve apenas duas exceções a essa filosofia narrativa). Ainda que não entendamos a princípio todos os motivos ou "truques" efetuados para despistar suspeitas, sabemos quem armou o plano e fez as ações.

E aí entra o Tenente Columbo, feito por um fabuloso Peter Falk em 69 telefilmes, de 1968 a 2003 (trinta e cinco anos, treze "temporadas"). Columbo é um personagem ímpar. Dono de uma capacidade dedutiva extraordinária, o humilde oficial do Departamento de Polícia de Los Angeles só encontra rival em Sherlock Holmes. Consegue enxergar minúcias, apontar paradoxos, concluir uma investigação com base
naquilo que é óbvio mas não aparente, que todos haviam desprezado.

Columbo não pega em armas — em uma ocasião, inclusive, tentou fazer com que se passassem por ele num obrigatório exame de tiros da polícia —, não participa de corridas e perseguições, não se interessa por nenhum aspecto movimentado da vida policial. Seu método consiste em andar pelos ambientes relacionados aos assassinatos, ligar um fato a outro, pensar e inquirir os suspeitos — insistentemente, sempre "lembrando" de algo no último instante e os irritando, acabando com a diplomacia inicial e despertando a agressividade dos que até então possuíam álibis perfeitos.

O policial que vemos aqui é um retrato marcante e incomum: educado, cordato, boa praça, também sempre lembrado por seus trajes amarrotados (o icônico sobretudo bege), o indefectível charuto numa das mãos, o caderninho de notas, o carro decrépito, a aparência desleixada. Inúmeras vezes é tratado mal por seu jeito simples e expansivo, por seus modos "não refinados". Já foi perguntando se estava disfarçado, questionado se de fato era da polícia e até mesmo confundido com mendigo! É que Columbo também é visto nesses momentos "não heroicos", das fragilidades do cotidiano: vai ao veterinário levar seu cachorro, visita o dentista quando um dente lhe dói, chega na cena do crime com a barba por fazer, cara de sono e comendo algum lanche apressado apenas para matar a fome... Columbo é gente como a gente, com todas as dimensões e facetas da pessoa comum. Não é sobre-humano, é um gênio que diverte por seu jeito estabanado, sua tranquilidade e impertinência (quando ele descobre/intui sobre quem é de fato o homicida, "gruda" inescapavelmente nele). Leva o trabalho a sério mas não faz disso uma tarefa estressante, anda disposto e de bom humor, com leveza, fala da família e da mulher — sempre referenciada, jamais mostrada; a não ser numa absurda série spin-off que inventaram certa feita, sem Falk e apenas com a Mrs. Columbo, que deixa de ser a esposa do dedicado policial e vira ela também uma combatente do crime.

Ao longo da série, inúmeras celebridades cometeram seus assassinatos: José Ferrer, Martin Landau, Vera Miles, Donald Pleasence, Robert Culp, Louis Jourdan, Patrick McGoohan, Johnny Cash, Ray Milland, Leonard Nimoy, William Shatner, Oskar Werner... Os episódios foram dirigidos por gente como Steven Spielberg (em seu passado televisivo setentista), Patrick McGoohan (que já matou em vários telefilmes da série, sendo quem mais nela apareceu depois de Peter Falk!), Ben Gazzara, James Frawley (diretor do primeiro e genial filme dos Muppets), Richard Quine e, não creditamente, John Cassavetes (também um assassino de respeito, em Étude in black, um dos melhores momentos da série inteira). Mas é sempre Columbo e Peter Falk quem encantam e dão o sentido à série, a despeito de todas as virtudes estilístico-narrativas de cada telefilme.

A série fez sucesso e ganhou vários prêmios e reprises, algumas tentativas de refilmagem, livros. Seus criadores, William Link e Richard Levinson, são também os autores por trás da célebre Murder, she wrote, estrelando Angela Lansbury. Mas nem eles e nem Peter Falk, apesar de bem sucedidos em outros trabalhos (sobretudo Falk, que fez muitos papéis importantes), conseguiram (ou mesmo quiseram) se livrar da fama do assombrosamente inteligente Tenente Columbo. Ainda hoje a série possui um séquito de fiéis adoradores e é objeto de análises, revisões e sátiras e paródias, sinal de sua grande aceitação na cultura popular, e não só.

Resolvi escrever este texto como uma pequena homenagem a esse colosso televisivo, na empolgação de rever uma de suas temporadas (a terceira), mas, relendo-o, acho-o incompleto e pobre, sem dar a dimensão do brilhantismo de tudo. Assim como Columbo, a qualquer momento lembro de "uma coisa curiosa que não me sai da cabeça" e acrescento just one more thing...

Finalmente, alguns momentos/vídeos interessantes da série (o último trecho é um dos meus favoritos de todos os filmes):

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Bonanza

BONANZA é um dos nomes do faroeste televisivo mais icônicos e lembrados, após décadas de sua exibição original. Foi uma série extremamente longeva, quase quinze anos no ar, com cerca de quatrocentos e trinta (!) episódios. Sua popularidade era incontestável, e mesmo hoje podemos ver como a série ainda tem apelo: além dos inúmeros DVD espalhados em lojas e bancas de jornal, a série é reprisada, de segunda a sexta-feira, no canal brasileiro do TCM. E sua exibição principal se dá no início do horário nobre! Trocando em miúdos, 1/12 da programação diária do TCM é dedicada a Bonanza! Não é um feito pequeno para uma série de mais de cinquenta anos (começou em 1959, durou até 1973).

A verdade é que Bonanza não é esquecível. Fica na memória e faz parte da vida de cada espectador que acompanha ou acompanhou o programa. Como esquecer sua abertura, sua música-tema? Os desenhos dos créditos, que lembram tanto os dime novel, os frontispícios de gibis clássicos? As razões do sucesso da primeira série de faroeste filmada integralmente a cores são simples: suas histórias e seus intérpretes. Bonanza trata de um núcleo de personagens não tão comuns em faroestes: uma família. Trata-se do veterano ex-militar, ex-comerciante e atual latifundiário Ben Cartwright (Lorne Greene) e seus três filhos Joseph, ou "Little Joe" (Michael Landon), Eric, ou "Hoss" (Dan Blocker), e Adam (Pernell Roberts). A variedade impressiona: cada um é filho de uma mulher diferente, as três falecidas esposas de Ben. E cada um possui distinta personalidade: Hoss é o gentil grandalhão, de coração afável e modos amigáveis; Adam é o que estudou no Leste e por isso é um pouco mais arrogante e sério; Little Joe é o impulso da juventude, o inconsequente e briguento. Mas todos se parecem com Ben quando devem ajudar alguém, trabalhar juntos, resolver algum problema.

No rancho Ponderosa, os quatro vivem aventuras de tons diversos: às vezes estão envolvidos em algum problema grave e com risco de morte ou outro infortúnio, às vezes cortejam alguma mulher e tentam estabilizar um relacionamento, às vezes divertem-se em planos, esquemas e confusões cômicas. O seriado não se concentra em nenhum personagem (ainda que evidentemente Ben una tudo e todos), e em nenhuma saga específica. São tramas fechadas e os Cartwrights vão seguindo dia após dia sua vida cotidiana.

Apesar de não haver coadjuvantes fixos, por a ação ser voltada aos Cartwrights e a Ponderosa, algumas figuras apareciam com frequência: Candy, o faz-tudo da fazenda (praticamente o "quarto irmão" da família); o xerife Roy Coffe, envelhecido mas sagaz defensor da lei; Clem, o outro braço da lei; Hop Sing, o chinês imigrante que é o cozinheiro de Ben etc. Esse reforço era necessário uma vez que, por as temporadas do programa serem longas, nem sempre todos os atores protagonistas estavam disponíveis para todas os episódios. Há, portanto, uma mistura não só de episódios cômicos, de aventura, de drama, de romance, de ação, mas também de episódios em que Hoss se destacava, ou Ben, ou Adam, ou Little Joe, apesar de os esforços serem focados para apresentar sempre todos eles unidos e interagindo.

Adam, por sinal, saiu da série após a sexta temporada. Insatisfeito com os roteiros, alegadamente, Pernell Roberts deixou os Cartwrights com a triste missão de cavalgar apenas em três, e seu Adam foi, como dito em alguns episódios, viajar, comunicando-se com sua família por cartas. A série aguentou bem: mais da metade dos episódios ainda seria produzida. Candy foi um dos esforços de substituição para Adam, e mais ao fim da série um jovenzinho foi adotado por Ben. E além desses coadjuvantes onipresentes, havia larga profusão de atores convidados, os "guest stars". Nos primeiros anos da série era comum ver gente que estava começando no showbusiness e que ainda ficaria muito famosa: Jack Lord, James Coburn, Lee Marvin, Gena Rowlads, Charles Bronson... Além desses, muitos outros coadjuvantes e figurantes apareciam por episódio, tornando o microcosmo de Virgina City (a cidade contígua a Ponderosa) um ambiente bastante crível e aprofundado — tentando a todo custo romper a "inverossimilhança" dessas séries, onde num episódio aparecia um ator (que apenas apareceria naquele episódio) que tal ou tal personagem recebia como um grande amigo, por exemplo; ora, se era um grande amigo por que nunca apareceu antes e nunca apareceria depois?

A série foi se mantendo durante mais de uma década, quase sempre com audiência respeitável e público fiel. Mas o natural desgaste de uma produção tão extensa (em anos), a decadência do faroeste americano (com a chegada do spaghetti) e também a prematura morte de Dan Blocker (Hoss chegou a morrer também na série, num recurso incomum para a época) precipitaram seu fim. Michael Landon engatou logo Os pioneiros — onde agora era ele o patriarca de uma família —, Lorne Greene foi para o espaço em Battlestar Gallactica, Pernell Roberts foi ser médico no spin-off de MASH intitulado Trapper John, M.D., a vida seguia adiante sem Bonanza. Aliás, falando no MASH de Robert Altman, uma curiosidade: esse grande cineasta dirigiu muitos episódios desta nossa série de faroeste, e ficou tão amigo de Dan Blocker que, quando de sua morte, correu logo para dedicar ao amigo um de seus mais aclamados clássicos: The long goodbye, mais uma aventura de Philip Marlowe (desta vez encarnado por Eliott Gould). Passaram por Bonanza também: William Witney, Jacques Torneur, Tay Garnett. Michael Landon se importava tanto com a série que dirigiu e escreveu em vários momentos, também.

Para atestar a qualidade de Bonanza basta não se deixar levar pelo preconceito e achar que é uma série embolorada e desinteressante hoje. Em suas histórias vemos muitos elementos progressistas que a tornam muito atual e pertinente: direitos indígenas, denúncia da intransigência do exército, igualdade racial, luta pelo feminismo. Há em quase todas as personagens e tramas um grande desejo por compreensão entre os povos, por paz entre as nações, amizade entre as pessoas. São alguns dos motivos que tornam o seriado um ícone, que ainda hoje emociona e encanta. Conhecer os Cartwrights não é apenas deparar com a história da colonização norte-americana, seus problemas e problemática, e também não é apenas adentrar a história da televisão e seus seriados historicamente bem sucedidos: é fazer amigos, estar com eles na luxuosa e confortável casa de Ponderosa, tentar junto a eles corrigir injustiças e participar, como um Cartwright, daquela vida, respirar aquela poeira nas cavalgadas e sentir o sol nas costas durante as tardes tranquilas (ou não) de Virgina City.

 A seguir, duas aberturas de Bonanza, com arranjos e elenco fixo modificados (respectivamente, primeira e décima temporada):

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mad about you

Mad about you foi um dos seriados que eu via na adolescência, época em que, apenas com obrigações escolares e bem mais livre na cabeça e no tempo, tive tempo para perder muito tempo com mil coisas que hoje sacrificaria sem nenhum sacrifício.

Uma delas eram os seriados que eu via aos montes, nos canais pagos da Warner e da Sony. Vi várias temporadas de Friends, Just shoot me!, Frasier, Becker, Everybody loves Raymond, Married... with children, Spin city etc. Como deu para perceber, adorava sitcoms, pouco ligava para os dramas ou esse tipo de série mais "interligada" que hoje abunda, com arcos narrativos que tomam muitos episódios e às vezes a série toda — não, o que eu queria era dessas séries "imediatas", que tanto faz como tanto fazia ver episódios pulados, soltos, fora da sequência e o que mais fosse. Mas claro que havia aí um paradoxo involuntário: para que procurar tanta liberdade, se eu religiosamente não perdia um momento dessas séries? Além de tudo elas eram reprisadas à exaustão...

Mas a minha favorita sempre foi Mad about you. Enquanto a maior parte dos seriados eu via como quem assiste a algo dispensável, que pode ser descartado, Mad about you era outra coisa: era importante, necessário, era algo que me dizia respeito, eu me importava com aquilo e com aquelas pessoas.

A razão mais forte para eu gostar tanto dessa sitcom era a mesma que faz com que ainda hoje eu continue apaixonado por ela: Helen Hunt. Ou melhor, Jamie Buchman. O feliz encontro que juntou uma atriz magnífica com sua expressão mais perfeita. Costumo dizer que as melhores atuações que já vi em seriados televisivos são as de Helen Hunt neste Mad about you e a do colossal Peter Falk em Columbo. Jamie Buchman, que já descrevi como "a mulher da minha vida", me atrai por sua incrível sinceridade/naturalidade, uma voz de intensidade e força que faz com que ela pareça sempre possível e encantadora, companheira e cúmplice inteligente, real.

Mad about you centra-se em Jamie e seu marido, Paul, feito por um dos criadores da série, Paul Reiser (o outro criador é Danny Jacobson). Se é verdade que por vezes o texto de Paul parece muito "engraçadinho", quase um deslocado 'stand up', seu jeito descontraído e seu bom timing cômico relevam qualquer problema desse tipo. E não se pode falar mal de quem criou essa série, fez sua música-tema e compôs junto a Helen Hunt o casal mais simpático da televisão.

Paul e Jamie são os únicos personagens que seguem do começo ao fim da sitcom. A melhor amiga de Jamie (Fran), sua irmã (Lisa), os pais de Paul (Sylvia e Burt), seu primo (Ira) e muitos outros dão as caras com maior ou menor frequência, sumindo por uns tempos e reaparecendo em outros. Alguns personagens, como o "andador" de cachorros, a terapeuta do casal, o tio esquisito de Paul (feito por Mel Brooks) ou os pais de Jamie (interpretados por vários atores, com destaque para os míticos Carol Burnett, admirada por Chespirito, e Carroll O'Connor) também aparecem com certa regularidade, apesar de nunca serem exatamente fixos.

Fixos mesmo apenas Paul e Jamie Buchman. E isso é ótimo e muito adequado. Aliás, sinto uma queda na qualidade do seriado quando as histórias "de marido e mulher" se transformam em histórias "de família". Quando resolvem ter um filho, quando de fato nasce uma menina (Mabel, única herdeira dos Buchmans) e a série perde essa gigantesca qualidade da crônica de um jovem casal, ficando um pouco mais convencional, apesar de ainda admirar pela vitalidade dos atores, a direção afinada, o texto com sua graça peculiar e sobretudo ainda por Helen Hunt, que nunca está menos que fascinante em cada um dos 164 episódios.

A série fez sucesso por aqui, era constantemente reprisada e creio que chegou a passar na televisão aberta, evidentemente dublada (o que é um crime). Mas há anos é pouco referenciada, sempre perdendo pela superexposição da muito inferior Friends, que foi inteiramente lançada em DVD e agora sai em blu ray; Mad about you só saiu aqui numa edição especial comentada, com apenas quinze episódios selecionados. E nem nos EUA a série saiu de modo integral, o que é um grande absurdo e menosprezo.

[Falando em Friends, pode-se dizer que Mad about you é um pouco sua sitcom-irmã. Lisa Kudrow tem um papel em ambas; na primeira, é uma das protagonistas; na segunda, que iniciou antes e em que faz apenas participações especiais, é... a irmã gêmea da personagem que faz na primeira! Um detalhe curioso, sendo que há um episódio de Friends em que Jamie e Fran aparecem no café dos amigos e confundem sua conhecida com a irmã dela. Esse tipo de conexão, é verdade, me divertia mais quando eu era mais novo; mas é bacana também para vermos como Mad about you estava no centro do que se fazia de popular nas sitcons da época, tendo também um episódio com a presença de Kramer, o célebre amigo de Jerry Seinfeld em sua autointitulada série.]

Alguns grandes momentos nunca sairão da minha cabeça, como o episódio em tempo real e só um take, em que Paul e Jamie sentam do lado de fora do quarto de sua filha, esperando a bebê pegar no sono; uma festa em que eles se dividem e cada um vive suas cenas independentemente do outro mas com ação simultânea e uma bela distorção do tempo e espaço; as participações de gente como Jerry Lewis, Nathan Lane, John Astin e Steve Buscemi; e, claro, o casal se conhecendo, Paul tomando a iniciativa, Jamie o levando para a festa da empresa. Coloco aí embaixo esse belíssimo encontro, de uma honestidade sentimental fabulosa, junto a uma das aberturas (algumas fotos e nomes de elenco iam sendo substituídos) e a cena final exibida em 1999. Após sete anos e um merecidíssimo Oscar no meio do caminho para Helen Hunt, a série se encerrava da maneira mais tocante possível, num episódio duplo dirigido pela própria intérprete de Jamie. Fechando assim uma pequena joia romântica que envelhece muito bem e continua sendo uma grande inspiração para mim.

sábado, 6 de outubro de 2012

O prisioneiro

Pouco tempo antes de ver O prisioneiro, li "O castelo", de Franz Kafka. E não sei se foi uma estranha coincidência que me levou a logo em seguida ver a série, ou se todas as conexões que vejo entre as duas obras são fruto de uma percepção peculiar (e talvez equívoca) minha, como quando acabei "Don Quijote" e passei a acreditar que talvez a maior parte das narrativas dos últimos quatro séculos bebem com avidez dessa fonte inesgotável que é a obra-prima de Cervantes (o que continuo achando, por sinal).

O fato é que, assim como "O castelo", a série criada, protagonizada e em boa parte escrita e dirigida por Patrick McGoohan é também uma visão de certo modo lógica sobre absurdos institucionais. E tanto K. (protagonista do romance) quanto o Número 6 (protagonista da série) são elementos que se veem imersos num sistema que primeiro parece desprezá-los, depois talvez estranhamente necessite deles; e eles, desiludidos e nervosos, procuram sair do sufocamento, minando as estruturas daquela sociedade. Daí as duas obras possuírem o surrealismo quase na mesma medida, habitado por personagens estranhos e que por vezes parecem incompreensíveis — afinal, em que mundo se passa esses contos?

Chamo de série, mas na verdade "O prisioneiro" é uma minissérie, com apenas dezessete episódios. A sua vida curta televisiva foi talvez uma resposta a certa complexidade ainda então inaudita nesse tipo de mídia. Apesar de hoje ser bastante cultuada, a minissérie continua desagradando aos fanáticos pelas "explicações plausíveis", que teimam em procurar amparo material para a construção de alegorias e metáforas.

A chave para tudo é entender a coisa na sua própria lógica, como o deveria ser para qualquer narrativa ficcional. Então basta que se saiba o seguinte: um homem, com um trabalho específico, demite-se; contra sua vontade, é transportado a uma comunidade isolada no tempo e no espaço, chamada simplesmente de "village" (vila). O tal homem recebe a classificação de Número 6, e a todo instante é inquerido sobre as razões de sua demissão. Por meio de trapaças, sedução (by hook or by crook) e todo tipo de tortura, tentam obter os tais motivos, ou isso alegam. A minissérie descreve a vida do Número 6 na sua busca primária: descobrir quem é o topo daquela cadeia, o elo que tudo liga e coordena, o ápice daquela organização: o Número 1 (no romance de Kafka, o Número 1 é evidentemente Klamm, o oficial inalcançável). Parece uma tarefa inviável: o subalterno mais imediato a ele (o Número 2) a todo instante é trocado, demonstrando como até mesmo a segunda pessoa "em importância" naquele sistema é facilmente substituída. Quem é o Número 1?

A minissérie é um microcosmos de soluções a esse enigma. Experimentando ambientações, estruturas narrativas e desenvolvendo episódios que parecem não servir a propósito algum (parecem, apenas), os dezessete capítulos permitem uma análise bastante intensa das inquietações das personagens, sendo ainda uma descrição impressionantemente viva de estados mentais e comentários ácidos sobre política, liberdade, psicologia. É difícil classificar esse experimento, mas, retomando minha imaginosa associação de há pouco, diria que superficialmente pode-se dizer que "O prisioneiro" é a mais fiel adaptação de Kafka já feita, mesmo sem adaptar diretamente nenhum texto de Kafka.

Talvez a melhor abertura/introdução de uma série de televisão:

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sherlock

Sherlock Holmes é certamente uma das mais célebres figuras ficcionais de todos os tempos. É difícil não encontrar alguma citação a pessoa inteligente ou detetive brilhante sem referenciá-lo de alguma maneira.

Mas ao mesmo tempo Sherlock Holmes é uma das criaturas ficcionais mais mal representadas em adaptações. A questão cuidada é apenas a da aparência, então vemos sujeitos altos e magros, com nariz marcante, gorro, capa e um cachimbo. Sua apresentação física é tão estilizada que já nem se preocupam mais em ler as histórias originais de seu criador Conan Doyle — o cachimbo do detetive nunca foi curvo em texto algum, por exemplo.

A primeira aparição de Sherlock se deu no magistral romance "Um estudo em vermelho", publicado em 1887. Nesses cento e vinte e cinco anos, uma infinidade de peças, filmes, programas televisivos, quadrinhos e todo tipo de mídia já se apropriou das personagens de Doyle, mas a maior parte com preguiçosa indolência e fracasso na caracterização de Holmes como mestre na dedução e lógica: quase todo mundo prefere ficar nos velhos clichês da roupa, da lupa e da ambientação superficial, com o fog londrino, o dr. Watson e a casa na rua Baker, 221B.

Até mesmo o mais famoso Holmes das telas, Basil Rathbone, oferecia um pálido arremedo do gênio. Ele praticamente se resumia a disfarces tolos e raciocínio primário, sem extrair o evidente daquilo que a todo mundo parece incompreensível ou invisível. Era um Sherlock Holmes medíocre, que em nada se aproximava da incrível capacidade do detetive de Conan Doyle.

Até que surge, em 2009/2010, um novo Sherlock. Encarnado por Benedict Cumberbatch, o Holmes da série televisiva Sherlock aparece atualizado, vivendo no mundo globalizado contemporâneo, tendo um site, usando SMS, assessorado por um dr. Watson (um também iluminado Martin Freeman) mulherengo, que tem um blog, é sarcástico e amargurado e precisa a toda hora avisar que não, não namora Sherlock Holmes. Talvez muitas pessoas conservadoras tenham se arrepiado ao ler essa descrição, e também deve haver quem, assustado pelo conceito de modernidade do novo Sherlock, decida simplesmente passar longe disso tudo. Erro terrível: o novo Sherlock é o verdadeiro Sherlock Holmes, finalmente despontando após décadas de adaptações rasas e formulaicas!

Com apenas meia dúzia de episódios (de uma hora e meia cada) feitos até o momento, "Sherlock" apresenta Holmes e Watson às voltas com conspiradores, serial killers e todo tipo de crime que existia na Inglaterra vitoriana e ainda existe. Muito inteligentemente, "Sherlock" recusa a transposição literal das histórias de Conan Doyle e busca sua própria identidade: assim, os planos do submarino Bruce-Partington viram planos para um MÍSSIL, e Irene Adler, Lestrade, James ("Jim") Moriarty e Mycroft Holmes todos possuem a dubiedade necessária para representar adequadamente tramas com espionagem, golpes de Estado, terrorismo e outros temas atuais. É portanto uma série que utiliza a fonte original como inspiração, e não como mera cópia.

Mas o grande destaque é a dupla Holmes e Watson, inquestionavelmente. O Holmes de Cumberbatch é a minha ideia perfeita de um Holmes legítimo e crível: sua obsessão, seu perfeccionismo, suas manias e seu nervosismo, seu talento gigantesco em resolver problemas aparentemente insolúveis, tudo isso é bem impressionante e seu retrato é fascinante. Do mesmo modo, o Watson de Freeman é um Watson independente, inteligente na medida para ser o digno parceiro e amigo de Holmes, decidido, algo intrépido e considerável "elo" entre o mitico/divinal (Holmes) e o mundano/comum (todas as outras pessoas). A relação entre eles, a confiança, a amizade e o evidente respeito, a série mostra essas características com naturalidade e força, e se os atores escolhidos não fossem tão bons com certeza "Sherlock" não seria um empreendimento tão feliz.

Com decisões interessantes para evitar os truques de transposição literária, "Sherlock" utiliza criativamente flashbacks, montagem truncada e direção versátil, apta a seguir vários estilos apenas para fazer funcionar a trama narrada. Ainda que por vezes os recursos empregados pareçam algo desnecessários ou mal ajambrados, é de se louvar a iniciativa de fugir da tradicional representação de diálogos, de exposição verbal, da adaptação ao pé da letra dos livros. "Sherlock" é uma bela série que merece ter muito sucesso nos anos que (esperamos) se seguirem.

Mix das músicas do programa:



P.S.: Um dos quadrinhos que homenageiam/parodiam Sherlock Holmes está nas bancas: trata-se do Almanaque do Mickey nº 8, com "o maior detetive de Londres" Sir Lock Holmes!