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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Gummi bears

A série animada mais lembrada e referenciada da Disney é provavelmente DuckTales — com justiça, pois trata-se de uma bela série, de boa animação e de episódios e personagens fortes e memoráveis, superior a quase todas as séries posteriores. Mas há uma série que veio ainda antes e que pelo menos "empata" em qualidade com a dos patos aventureiros (e, em alguns pontos, creio que a supera): Adventures of the Gummi bears (aqui chamada de Ursinhos Gummi).

Os Gummis são ursos coloridos e falantes que conviviam pacificamente com os humanos em uma época remota, até que houve um momento de rompimento e os ursos ficaram tão reclusos (e escassos) que adquiriram o status de lenda: nenhuma pessoa mais acredita na existência dessas criaturas, salvo sonhadores tidos como lunáticos saudosistas. São tomados por pura fantasia, porque há séculos não se tem notícia deles. Estamos numa sociedade medieval, com reis, princesas, castelos, cavaleiros. E ogros!

O choque que dá início à série (e à intriga) é a descoberta acidental, feita pelo jovem Cavin (Crispim no Brasil), da real existência dos ursos Gummi. Após um estranhamento mais que justificável (os Gummis fogem com horror de qualquer contato humano, acreditando que a descoberta de seu segredo possa levá-los à extinção), os ursos acabam confiando no jovem e este lhes entrega um velho amuleto presenteado a ele por seu avô (um dos lunáticos a que me referi acima!). O amuleto consegue abrir um livro místico deixado pelos antigos Gummis e nele os remanescentes da raça encontram magias poderosas que podem levá-los a combater seus inimigos e a ajudar as pessoas — que é, afinal, uma das funções primeiras e quintessenciais dos Gummis. Portanto, o encontro com Cavin e a consecução da abertura do livro possibilitam aos Gummis uma nova vida e missão: eles devem sair um pouco de sua obscuridade e ajudar a quem precisa, tentando a todo custo proteger sua independência e identidade.

Estamos no reino de Dunwyn, comandado pelo bondoso rei Gregor, pai da encantadora princesa Calla (Carla, em português). Tudo vai bem e em harmonia, exceto pelo enorme ressentimento de Duke Igthorn (inacreditavelmente chamado de Duque Duro por aqui!), ex-cavaleiro expulso das fileiras reais, que mora numa fortaleza decrépita chamada Drekmore e que deseja a todo custo tomar o reino e destronar o velho Gregor (uma curiosidade é que o mesmo ator originalmente dubla ambos os personagens, Michael Rye, e sua performance é invejável, sobretudo na voz do vilão). O duque afinal depara com os ursos e descobre que não só eles são reais como possuem uma arma poderosíssima: o gummiberry juice (um suco artesanal feito com as tais frutinhas, em quantidades, dosagens e procedimentos específicos), que aos ursos dá a capacidade de enormes e velozes pulos, mas aos humanos garante uma força sobre-humana (de duração bem limitada, contudo). A partir daí, o duque e seus aliados (ogros, burríssimos e enormes, exceto seu braço-direito Toadwart, minúsculo e bastante mais decente intelectualmente) não descansarão enquanto não puserem as mãos nos Gummis para descobrir a receita do tal suco.

A bem dizer, eles não querem nada com os ursos e para eles tanto faz como tanto fez haver ou não ursos coloridos saltadores na floresta. O que interessa a Igthorn é o suco, e nesse esforço ele e seus cupinchas tentarão por inúmeras vezes ludibriar os Gummis, seduzi-los, raptá-los, enganá-los, roubá-los, chantageá-los. De todas as maneiras possíveis. Igthorn sempre acaba frustrado e é um vilão cômico — a começar por sua figura desengonçada e seus trejeitos do Capitão Gancho de Frank Thomas, e seu rosto marcante mas estranhamente engraçado, que a mim me lembra muito o do grande Frank Zappa —, mas também é persistente e perigoso, o que me leva a destacar um dos grandes trunfos da série: a aventura!

Uma das razões para tudo funcionar bem é que realmente sente-se o perigo. Seja nas mãos de Igthorn ou em suas vidas cotidianas ou em perigos vários, sentimos quando os Gummis estão ameaçados, quando a situação está complicada, quando tudo parece perdido. Quando estão em perigo de morrer, ou de fracassar na defesa de suas metas, ou quando algum humano está em vias de descobrir o segredo de sua existência (sabem dele apenas Cavin, Calla e o próprio Igthorn — que tanto não quer saber tanto dos Gummis que nunca se preocupou em falar sobre eles para ninguém mais no reino!). Há sombras de problemas e obstáculos, o que torna tudo mais real e interessante; em séries como Darkwing Duck, por exemplo, perigos aparecem de maneira tão estilizada que não chegam a provocar comoção, parece tudo apenas caricatural e absurdo. Aqui (e em DuckTales) os entraves são para valer e tudo depende de acasos e competências, está tudo em risco e em jogo a todo momento.

Os Gummis a que somos introduzidos são seis: Tummi (Pancinha em tradução brasileira), gorducho e doce, compreensivo e amigo; Sunni (Soninha), a espevitada mocinha que se torna a melhor e inseperável amiga da princesa Calla; Gruffi (Bronquinha), o resmungão e faz-tudo, dono de insuspeitável grande coração e proclamador do gummi way dos antigos Gummis; Zummi (Maguinho), o ancião e sábio consultor dos livros antigos e ocasional feiticeiro; Grammi (Vozinha), a senhora cozinheira que possui a receita do suco tão desejada por Igthorn; Cubbi (Tiquinho), destemido e idealista, criança que encontra em Cavin um grande amigo e parceiro de aventuras. Ao longo da série, outros Gummis aparecem de passagem ou esporadicamente (como uma casta de Gummis guerreiros); e pelo menos um deles, Gusto (um artista empolgado e bon vivant), acaba se juntando aos seis protagonistas e partilha de suas histórias em muitos episódios.

Uma das chaves para o frescor da série é a rotatividade de personagens e suas personalidades. Não há um só protagonista e isso não permite que a matéria fique tediosa. Há episódios centrados neste ou naquele urso, ou naquele grupo, ou naquela combinação vilão e herói, ou um episódio apenas com "mocinhos" descobrindo verdades sobre si, ou tramas cotidianas ou etc. E há histórias de comédia, de drama, de suspense, de aventura propriamente dita; episódios curtos (10 minutos) ou "compridos" (20 minutos), uma variedade bastante expressiva que fez a série ter ao todo 95 (!) episódios e impressionantíssimas seis (!!) temporadas, recorde absoluto da animação televisiva Disney em todos os tempos. A série foi ao ar de 1985 a 1991. Boa parte dela foi lançada em DVD, o que já é um mérito: qualquer fã de animação Disney sabe como as séries televisivas são bastante menosprezadas, quase nenhuma disponível para venda ou mesmo localizável inteiramente na rede (para se ter uma ideia, boa parte dos episódios de Bonkers, série mais recente que The adventures of the Gummi bears, só se encontra na internet... dublada em russo!). A série foi tão popular que pulou para outras mídias, como brinquedos e gibis (boa parte das histórias em quadrinhos saiu aqui em meados dos anos 80/90, sobretudo pela extinta revista Disney Juniors, da Editora Abril).

A série dos Gummis teria surgido por inspiração dos famosos doces gelatinosos em forma de urso, mas dá para captar outras referências de animação e desenvolvimento narrativo no decorrer dos episódios. Pela ambientação, trajes e cenários, há muita semelhança com A espada era a lei, por exemplo; pelos personagens, com o famigerado O caldeirão mágico, sendo Cavin muito parecido com Taran e Calla, com a também princesa Eilonwy (e mesmo Toadwart é o mesmo Creeper, assistente do Rei de Chifres, mil vezes melhorado). Mas a meu ver os resultados obtidos pela série são muito mais felizes que os dos filmes citados, ainda que eu goste consideravelmente bastante deles (e sobretudo porque sendo dois longas de animação Disney os momentos antológicos de animação são inúmeros). Adventures of the Gummi bears não se deixa limitar pelo formato televisivo e pelas especificidades do subgênero infantil, apresentando-se antes como um produto de extremo refinamento e bastante profundidade, na relação entre as personagens, na direção e encenação e utilização dos elementos cênicos e de fantasia do cenário e das convenções narrativas e lendas medievais (aqui há monstros, magia, monarquia nobre, cavalaria heroica, até eventuais dragões!). Além de ser, assim como os doces que a teriam inspirado, uma grande delícia — com a indubitável vantagem de que, ao contrário das gelatinas, não enjoa e nem dá cárie!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Backgrounds da Disney

Os longas animados da Disney são conhecidos sobretudo por sua famosa "character animation", ou animação de personagem, arte levada ao refinamento por gente como os Nine Old Men (gente como Milt Kahl, Frank Thomas, Ollie Johnston e Ward Kimball) e também por artistas mais recentes como Glen Keane, Eric Goldberg e Andreas Deja, que consolidaram a animação disneyana e a consagraram e tornaram referência há várias décadas.

Mas nem só de personagens vive um filme de animação. Existe muita coisa ali, meticulosos e perpétuos trabalhos técnicos, da colorização à arte-final, dos "inbetweens" (os desenhos repetidos à exaustão, entre as cenas-chaves designadas pelo animador supervisor) aos efeitos "especiais" e ao processo de se selecionar o "tom" do filme, há muito o que se decidir, pensar no que utilizar, quais instrumentos usar, qual o tipo de visual para o conceito que se quer imprimir ao trabalho. Uma das principais etapas para dar a "cara" adequada ao filme são os backgrounds.

Trata-se simplesmente dos fundos de cena. Mas é ali que as personagens se movimentarão, é ali que se dará a encenação e o desenvolvimento do filme como uma narrativa amparada em uma estruturação de imagem e percepção. Sem os backgrounds, as personagens flutuariam num nada, sem a força plástica da ambientação, sem os recursos narrativos que isso comporta.

Provavelmente o filme mais ambicioso da Disney nesse aspecto foi A bela adormecida, lançado em 1959. Os fundos de Frank Armitage e (principalmente) Eyvind Earle foram cruciais para a amplidão um pouco "megalômana" (mas satisfeita) do projeto ao qual Walt Disney vislumbrou com um requinte e detalhamento inauditos, para exibição numa larguíssima tela widescreen nos cinemas — extensão enorme e de poderosa profundidade e poder de sugestiva imersão.

A seguir, alguns backgrounds (clicando nas imagens, elas aumentam) impressionantes de quatro clássicos do estúdio, bem diferentes entre si. Os títulos dos filmes são um link para os sites de onde retirei as imagens, e a visita a eles é recomendadíssima.

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Pinóquio (1940) - Claude Coats
Detalhada reconstrução de oficinas de brinquedo, ambientes de espetáculo, locais cheios de peças e objetos.



Bambi (1942) - W. Richard Anthony
Ambientes abertos, escuros e calmos, com folhas, árvores e cores calmas, frias, exuberantes ou melancólicas.


A bela adormecida (1959) - Eyvind Earle
Requinte e detalhamento obsessivo, ornamentos de luxo, ambientes naturais cheios de tons e matizes e formas.



101 dálmatas (1961) - Walt Peregoy
Despojamento, cores fortes e "cartunescas", que vazam dos objetos/figuras, tons climáticos ou soturnos, modernidade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Grandes animadores: Norman McLaren

Se a animação é criar movimento a partir de desenhos parados, Norman McLaren é um de seus expoentes mais criativos: sua técnica mais famosa consistia em desenhar diretamente na película, fazendo assim uma movimentação bastante peculiar e característica.

Lembro de meu primeiro contato com Norman McLaren: foi em 2007, quando consegui, num sebo próximo à faculdade, um exemplar do querido Os filmes de minha vida, de François Truffaut. Mesmo já conhecendo Hawks, Lang, Renoir, Hitchcock e tantos outros cineastas, nesse livro tive meus primeiros reais contatos com Samuel Fuller, Sacha Guitry, Jacques Doillon... e Norman McLaren.

Apesar de ser um animador famosíssimo, na época eu ainda não o conhecia; e fiquei bem curioso com o texto de Truffaut, sobre um curta-metragem de cinco ou seis minutos estrelado por uma galinha desenhada direto na película do filme! Truffaut dizia que apesar da duração desses filmes, seu diretor era sem dúvida um dos maiores do mundo. Curioso, já que Truffaut foi sempre meu principal mentor na crítica cinematográfica, fui atrás do curta. Eu usava o emule na época, e deixava vários filmes em processo de "baixamento" enquanto estudava de manhã, longe de casa; ao chegar, estava tudo lá me aguardando. Lembro da alegria que era ver três ou quatro filmes curtinhos de Norman McLaren por dia, com sua inventividade delirante, seu aspecto artesanal apaixonante, as possibilidades que eu via nesses curtas, o quanto aquilo tudo era novo e impressionante para mim.

Aos poucos fui vendo tudo o que achava dele. Vendo, revendo, revendo novamente. Em 2008, falei dele num texto da Zingu!. McLaren virou um ídolo meu. Um exemplo de inovação, brilho, gênio. Baixava documentários, via entrevistas, procurava os curtas perdidos (ainda me faltam uns dez).

A empolgação não diminuiu com o passar do tempo. Synchromy, um dos curtas que posto abaixo, continua sendo uma das minhas animações favoritas, e um filme que faço questão de colocar no meu top 100 pessoal. Adoro as brincadeiras que ele faz com o som, a imagem, a duração espaço-temporal de uma nota, a exposição do tempo de um áudio.

Além desse filme (e de outros do tipo, como a série Lines), McLaren fez curtas como o referido por Truffaut (Hen hop), stop-motion (com desenhos/objetos/pessoas, como A chairy tale) e experimentos com música e metalinguagem cinematográfica (como a série Animated motion, em que explica princípios da dinâmica animada). Também fez cinema live action, como suas imprescindíveis excursões ao mundo do ballet. Por Neighbors, critica ácida (mas bem humorada) à guerra, ganhou o Oscar... de documentário curta-metragem! Incansável artista, o canadense dedicou sua vida à investigação das possibilidades da arte da animação, e reconhecer seus méritos não é apenas questão de justiça: é uma constatação evidente a qualquer pessoa que tenha o prazer de conhecer seus trabalhos. A seguir, alguns de seus filmes mais representativos:

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Doug

Doug é uma série animada americana bastante popular no Brasil. O segredo para seu sucesso é sua extrema simplicidade: vidas simples, personagens simples. Nada simplório, contudo. Por trás da trivialidade cotidiana das tramas e acontecimentos, todo um mundo se descortina, um pouco o que se passa com Peanuts, onde a todo instante nos lembramos que esse quase minimalismo narrativo é sim uma poderosa fonte sugestiva: em Doug, as personagens vibram e se eternizam por sua perfeita constituição e desenvolvimento.

O personagem-título é um garoto barrigudinho e narigudo que se muda para uma cidade nova (Bluffington) e lá deverá fazer novos amigos e lidar com sua família e com suas pequenas crises de timidez, introspecção e criatividade. Conseguirá satisfatoriamente superar suas fobias e viver tranquilo e feliz? Ao longo dos 52 episódios produzidos pela Nickelodeon, essa tarefa deverá ser efetuada por nosso jovem amigo. E é um prazer acompanhar seus erros, êxitos e tentativas.

Há uma grande verdade em Doug, em seus pensamentos repletos de dúvida, seu inato inconformismo e sua doçura involuntária. No trato com o grande amigo Skeeter (Mosquito) Valentine, na sua involuntária rivalidade com o implicante Roger Klotz, nos seus medos envolvendo constrangimentos escolares, na sua curiosa relação com a "alternativa" irmã Judy, e, principalmente, na sua paixão secreta pela amiga Patti Mayonnaise seus modos e sua cabeça vão sendo revelados ao espectador, que, junto ao garoto, sofre, torce e se encanta com o dia a dia daquela localidade, com essa incompreensão própria da infância/começo da adolescência, com o caráter admirável de Doug e sua capacidade de imaginar problemas (ou solucioná-los). É agradável e inspirador vê-lo às voltas com suas aventuras, no colégio, em casa escrevendo seu diário, sonhando seus alter egos (Homem Codorna, Smash Adams etc.), brincando com o cachorro Costelinha (Porkchop) ou em qualquer outro ambiente, sempre importante para ele e, claro, um passo evolutivo em sua jornada.

Meus episódios favoritos são aqueles em que Doug está sozinho com Patti (como este), temendo desagradá-la, feliz por estar com ela por perto, receoso de declarar-se inoportunamente. A tensão entre os dois, o carinho evidente de ambos e as possibilidades do casal são uma combinação magnífica, ressaltada pela delicada animação da equipe de Jim Jinkins (criador do desenho), com suas cores calmas e expressiva movimentação de corpos e rostos. A naturalidade é tanta que por vezes parece que a animação nem existe, que aquilo tudo, com pessoas coloridas e caricaturadas, é uma filmagem de um acontecimento verídico. E não o é? A honestidade de Doug é que permite que essas criaturas nos fascinem e interessem. E, assim como Don Quijote não é apenas um herói de papel, Doug existe também fora de seu mundo desenhado.

A Disney adquiriu os direitos da série e fez dezenas de episódios de continuação, alterando fatos e personagens do universo "douguiano". Infelizmente isso amenizou a sinceridade do relato e transformou a coisa numa simples novelização de dramas adolescentes, ao gosto de tantos seriados teens da moda. Mas a série da Nickelodeon permanece como um testemunho de arte insuperável no retratar do nosso mundo numa época da vida em que não temos consciência da grandeza das coisas pequenas. E não importa se já fomos ameaçados por um valentão na aula ou se ficamos um dia inseguros de comer na casa de nosso alvo romântico, se precisamos fazer ballet ou ouvir as histórias do vizinho, e nem se estamos entediados numa viagem com os pais ou nervosos com um tipo de alimento — tudo isso poderia ocorrer conosco, e em tudo isso nos reconhecemos em Doug.

Vídeos: a genial abertura do programa, um clipe da célebre banda Os Beets e a canção que Doug compôs para Patti (mas ela não pode nunca saber que essa música existe!).

sábado, 19 de janeiro de 2013

Grandes animadores: Ward Kimball

Diferentemente de muitas animações, sobretudo contemporâneas, as produções Disney não eram creditadas "exclusivamente" a seus diretores — como ocorre por exemplo na Pixar, onde sabemos quais filmes são de John Lasseter, quais os de Brad Bird etc. A Disney historicamente era um team effort, sendo suas animações bastante "segmentadas", e os estudiosos/admiradores de animação reconhecem suas autorias de maneira também fragmentada: sabemos quem são os animadores de tal ou tal personagem ou cena.

A estratégia geralmente era dividir o filme entre os animadores mais capacitados/talentosos, cada um capitaneando uma criatura do longa. Antigamente houve os nine old men, artistas de confiança de Walt Disney e que o seguiram décadas a fio (alguns até após sua morte), cada um com sua visão pessoal da arte da animação mas todos trabalhando juntos para o melhor resultado no filme. Vendo os features (longas) da Disney hoje, é difícil não reconhecer que Walt legou bem as missões, com cada um dos "nove velhos" agindo no topo de suas interpretações e competências. E nos mitos dessa época, entre a ação desenfreada de Wolfgang Reitherman — que depois virou o chefe do departamento de animação da Disney, quando Walt morreu —, animador de cenas de lutas e animais (a baleia em Pinóquio, o rato em A dama e o vagabundo) e o naturalismo poético de Marc Davis (animador da pin-up Tinker Bell, da delicada Alice e da antológica Cruella de Vil), passando pelos inquietos vilões de Milt Kahl (Edgar, de Aristogatas, Madame Medusa, Shere Khan) e pela dupla clássica Frank Thomas e Ollie Johnston, um nome se destaca pela irreverência e espontaneidade: Ward Kimball.

Ward era o animador das coisas malucas, dos experimentalismos cômicos, da elasticidade dos corpos e rostos. Foi quem desenvolveu o Chapeleiro Louco, o Gato de Cheshire (ambos de Alice no País das Maravilhas), o alucinado gato Lúcifer (de Cinderela), os corvos de Dumbo. Mas talvez seu ápice de criatividade, alcance e expressividade tenha sido justo o personagem mais "certinho" da galeria: o Grilo Falante! Após ter uma de suas cenas favoritas cortada de Branca de Neve e os sete anões, Ward recebeu de Disney a tarefa-compensação de realizar esse grande personagem, quase o co-protagonista do filme do boneco de madeira. Seu Grilo Falante é um assombro, difícil não se encantar com as movimentações, gestos e expressões que o simpático inseto apresenta ao se aquecer do frio, ao interagir com os brinquedos da oficina de Gepeto, ao mostrar-se tímido com a imponente e bela Fada Azul, ao desesperar-se ao ver Pinóquio desrespeitando seus conselhos e enveredando ingenuamente pelo mau caminho. Um trabalho brilhante, que se fosse o único desenvolvido por Ward Kimball já seria o suficiente para eternizá-lo e torná-lo referência para mil animadores a partir de então.

No meio dos anos 1950, Ward Kimball interrompeu sua fecunda colaboração com os longas disneyanos. Fez ainda o professor Ludovico von Pato (Ludwig von Drake), para um programa televisivo, e colaborou em Mary Poppins, um dos maiores clássicos "live action" (entre aspas porque mistura atores reais com atores desenhados, pode-se dizer). A partir de então, com a morte de Disney em 1966, Ward Kimball e a maior parte dos nine old men resolveram se aposentar. Muitos, como Ollie Johnston e o próprio Ward, morreram recentemente, após décadas de inestimáveis serviços à animação. Mr. Kimball morreu em 2002, após cerca de 40 anos fora da Disney.

Ward Kimball, além de seu magnífico histórico como animador, possuía outra paixão: trens! Entusiasta de ferrovias e locomotivas, colecionava miniaturas, estudava seu funcionamento, e chegou a ter realmente um trem a vapor, com uma área específica para sua circulação! Entre os vídeos abaixo colocados, há uma curiosa participação de Kimball no programa de Groucho Marx You bet your life, onde fala um pouco sobre seu trabalho (visivelmente obscuro do grande público, que conhecia muito bem os filmes e personagens mas sabia pouquíssimo dos autores da equipe de Disney), sobre sua paixão por locomotivas e também responde a algumas perguntas do quiz show, incluindo uma sobre... Pinóquio! Além disso, trechos de animações em que ele foi o artista principal por trás do personagem em questão e dois curta-metragens: It's tough to be a bird, realizado em 1969, valeu a Kimball, seu diretor e roteirista, o Oscar; e Escalation, impressionante relato dos transtornos do mundo em 1968, era de transformações com a contracultura colidindo com o belicismo, a Guerra Fria, o Vietnã — é difícil ver nesse curta o mesmo homem por trás de tanta alegria nos filmes Disney, sendo o relato descrente, agressivo, visceral; mas como contradizer esses sentimentos numa época em que a velha mentalidade americana saía, à força, da ordem dia? Percebia-se que os EUA não eram tão invencíveis e nem tão heroicos quanto acreditavam. Ward realizou em três minutos um demonstrativo desse espírito. Porém, não conseguiu desmistificar seu próprio trabalho: Ward Kimball será sempre lembrado por seu rosto bonachão, de grandes óculos de grossas lentes, parecendo ele próprio um de seus divertidos personagens de animação.

Primeira parte de IT'S TOUGH TO BE A BIRD | Segunda parte | Terceira parte

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Grandes animadores: Frank Tashlin

Nos anos 30 e 40, a maior concorrente da Disney no campo da animação provavelmente era a Warner Bros. Com personagens extremamente carismáticos — e criados especialmente para os cartoons, ao contrário das adaptações de Popeye, Krazy Kat etc., que no mais das vezes eram pálidas "amenizações" da genialidade dos quadrinhos —, a Warner conseguiu se impor não apenas pela força de sua produção mas também por estratégias comerciais bem sucedidas: como passavam curtas antes dos longas no cinema, não era difícil encher de coelhos, patos e porcos a cabeça de quem foi atrás dos filmes com James Cagney, Errol Flynn, Bette Davis; além disso, os desenhos muitas vezes satirizavam/homenageavam as produções dos estúdios, havendo por exemplo grande material paródico sobre Casablanca e os famosos gângsteres da Warner, como Humphrey Bogart, George Raft, Edward G. Robinson.

Diferentemente da busca de aperfeiçoamento naturalístico disneyano, tentando observar a natureza e extrair dela a matéria-prima de suas obras, a ordem na Warner era a anarquia: personagens se esticando, amassando, se machucando cruelmente e logo em seguida de pé e prontos para azucrinar seus rivais e oponentes, movimentos que desafiavam qualquer lei da física. Era uma saudável complementação: à gentileza de Mickey Mouse se contrapunha o cinismo "grouchiano" de Bugs Bunny (Pernalonga), aos surtos de humor de Donald Duck juntava-se a bizarra amoralidade de Daffy Duck (Patolino), face à ingenuidade de Pateta seu colega suíno Porky Pig (Gaguinho) demonstrava por vezes um gênio igualmente bondoso.

Por essa época, verdadeiras pedras basilares da animação estavam dirigindo e criando desenhos animados para a Warner: Chuck Jones, Friz Freleng, Tex Avery. Menos conhecido nesse campo, Frank Tashlin animou alguns curtas e dirigiu muitos outros, que estão ainda hoje entre as maiores pérolas do estúdio. Revê-los é um prazer e simultâneo aprendizado. Continuam engraçadíssimos e fascinantes.

A razão para Tashlin ser pouco lembrado nessa área nada tem a ver com sua competência. Ou melhor, tem: Tashlin acabou se tornando uma lenda em outro campo da arte cinematográfica: a comédia, pura e simplesmente. São dele os mais geniais filmes com Jerry Lewis não dirigidos por Jerry Lewis. Ele que deu a Jayne Mansfield seus grandes momentos, em The girl can't help it e Will success spoil Rocky Hunter?. Ele que dirigiu Bob Hope em sua comédia mais reverenciada, Son of Paleface. Os franceses o adoravam, o público aprovava seus filmes mesmo sem saber que era Frank Tashlin o maior responsável por tudo aquilo dar certo.


Mas poucos se lembram que Tashlin começou na animação. E foi ali que ele pegou o espírito que faria de suas obras mais famosas inquestionáveis "filmes de autor". Sua concepção visual veio dos desenhos animados, com a elasticidade de corpos, maior exploração do campo visual, perfeição na mise en scène (encenação), direção apurada com as possibilidades do enquadramento, da câmera, do corte. Um animador pensa em tudo isso, pois ele é quem constrói a imagem, frame a frame, vinte e quatro vezes por segundo.

É preciso redescobrir o Frank Tashlin animador, assim como a crítica francesa o descobriu verdadeiro cineasta nos anos 50. Como pequeno incentivo, alguns vídeos de seu trabalho para deixar perene a memória desse grande artista:



P.S.: Descobri há pouco tempo que Frank Tashlin possui outra faceta esquecida do grande público: escritor. É dele este livro, que parece ser relativamente conhecido em alguns círculos, e que dificilmente não deve ser muito bom. A procurar.

domingo, 28 de outubro de 2012

Grandes animadores: Winsor McCay

 A "paternidade" da animação cinematográfica é normalmente creditada ao mítico Émile Cohl. Mas foi talvez Winsor McCay que, nos primórdios dessa arte, conseguiu desenvolvê-la ao ponto de criar inconsciente e involuntariamente inúmeras escolas que o seguiram e o seguem ainda hoje. Um dos prêmios mais famosos dados aos animadores (inclusive a Andreas Deja), o Winsor McCay award é um justo reconhecimento a um brilhante artista que não só foi um desbravador de caminhos, um pioneiro, mas um entusiasta inigualável, um daqueles visionários que tanto labutam em sua área de atuação que criam um padrão de excelência.

Winsor McCay é também célebre por ser o autor do seminal quadrinho Little Nemo in Slumberland. Um dos personagens mais influentes da arte sequencial, o menininho que ao adormecer adentra terras mágicas e surreais continua sendo uma quintessência da beleza gráfica narrativa, influência e inspiração de autores tão diferentes e tão geniais como Robert Crumb e Moebius. Na Itália há um selo editorial chamado Little Nemo, dedicado a obras sobre quadrinhos. No dia 15 deste outubro todo o mundo pôde ver a homenagem que o Google fez aos 107 anos desse espantoso ícone cultural. Até mesmo aqui no blog ele já havia sido citado!

No campo da animação, Winsor McCay não é menos influente, e seus curtos filmes impressionam pelo vigor do traço, a força do movimento definido, a beleza da composição. Dinossauros, aborígenes, até mesmo seu pequeno sonhador dão as caras no meio da fantasia de seu artista, que inclusive aparece em seu mais clássico momento apresentando a uma plateia de céticos seu maravilhoso engenho em fazer imagens se moverem!

O cinema de Winsor McCay é curto mas extremamente profundo. Mike Leigh colocou em seu top 10 filmes o curta How a mosquito operates, de apenas cinco minutos. A duração não importa muito: em minutos McCay podia criar mundos que cineastas e animadores menos capazes só conseguiam reproduzir, parcialmente, em épicos de muitas e aborrecidíssimas horas. Como se pode observar na pequena amostra de sua magnífica imaginação, a seguir:

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Grandes animadores: Andreas Deja

A Disney tem um histórico assombroso de animadores geniais. Não é fácil mensurar a influência desses artistas, dentro e fora dos estúdios disneyanos, ainda mais se considerarmos as décadas de incríveis trabalhos em animação que eles proporcionaram ao cinema.

Nas últimas décadas houve uma renovação do "staff", já que os animadores de mais idade (entre os quais os míticos nine old men) já estavam se aposentando ou falecendo. Após um período de baixa produtividade entre a segunda metade dos anos 1960 e a primeira dos anos 1980, no final dessa última década a Disney animada voltou a causar sensação, com o esforço conjunto de jovens talentos (sobretudo os nine new men) que entusiasmaram o público com personagens e histórias fascinantes. O pontapé foi dado com Oliver e sua turma, mas o merecido sucesso veio com A pequena sereia, em 1989. Havia já bons anos em que a Disney não fazia uma legítima obra-prima, e a sereiazinha inspirada em Andersen foi quem possibilitou uma impressionante retomada de empenho, talento e lucro para a então cansada animação de longas metragens.

Andreas Deja teve um papel crucial nessa época. Após trabalhar em O caldeirão mágico, As peripécias de um ratinho detetive, Uma cilada para Roger Rabbit e Oliver e sua turma, ele "estourou" com a criação, principal desenvolvimento e supervisão de personagens incríveis em filmes tão variados quanto A pequena sereia, A bela e a fera, Aladdin e O rei leão. Sua especialidade eram os vilões: ele que responde por Gaston (o grosseiro e arrogante caçador antagonista da Fera), por Jafar (o invejoso conselheiro do sultão de Agrabah) e por Scar (o tenebroso tio de Simba). Isso não impediu que ele também trabalhasse com resultados louváveis em personagens simpáticos como o Rei Tritão (pai de Ariel), Lilo (a garotinha havaiana de Lilo & Stitch), Tigrão (amigo de Pooh), Hércules e até mesmo Mickey Mouse (em Fantasia 2000)!

Deja também é um tipo de "showman", um dos mais reconhecíveis artistas dessa retomada: aparece em convenções, comenta em vários DVD e até mesmo mantém um blog, em que posta artes próprias e também tesouros cavados no passado, exibindo suas inspirações e deleitando os admiradores de artes Disney. Andreas é um grande conhecedor da história das animações disneyanas, e não foi à toa que escolheu fazer parte do time do então "desprestigiado" O rei leão (haviam-lhe proposto fazer a "primeira opção" Pocahontas): sua paixão por Mogli, o menino lobo o forçava a optar por um projeto onde poderia desenhar e animar animais!


A nota triste nessa sinfonia é que Deja deixou a Disney recentemente. Pouco se sabe ainda sobre suas perspectivas de novos trabalhos com animação, mas seu legado já é importantíssimo, e suas personagens/criações só parecem melhorar a cada revisão dos filmes.

Alguns trabalhos de Andreas Deja:

terça-feira, 10 de julho de 2012

Grandes animadores: Paul Grimault

O francês Paul Grimault dedicou praticamente toda a sua vida à animação, e no entanto não fez mais que uma dúzia de obras. Realizador bissexto, alguns de seus trabalhos possuem entre eles intervalos de cinco, dez, quinze anos (ou mais!). Creio que não apenas a evidente falta de incentivos (financeiros, críticos etc.) ocasionou esse diminuto corpo de trabalho, mas também uma consciência de integridade inabalável: é melhor legar poucas e boas obras do que inundar a carreira com mediocridades. Paul Grimault seguiu esse princípio e sua fama se deve a seu honesto talento, livre de concessões e pressões tolas.

As animações que dirigiu, entre 1931 e 1980 (cinquenta redondos anos), são bastante reconhecíveis pela delicadeza da moral, o traço entre o cartum e o lírico, a engenhosidade das tramas e a simpatia das personagens: crianças, apaixonados, loucos, suas criaturas são pequenos modelos de comportamento em um mundo que as hostiliza mas que elas enfrentam e vencem, impondo com certa doçura uma ordem mais adequada.

Em 1988 seus curtas foram agrupados em um filme com dedo do grande diretor Jacques Demy (ele mesmo bastante sensível aos anseios da narrativa infantil, como demonstrou no seminal "Pele de Asno"), chamado La table tournante. Também ficou conhecido seu Le roi et l'oiseau, longa em que adapta Andersen e com o qual encerra suas atividades; o longa se encontra no YouTube, bem como quase todos os seus curtas, dos quais uma amostra está abaixo.