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domingo, 30 de março de 2014

Personagens de Jules Verne

Já coloquei aqui alguns textos que retirei de outras "plataformas" (sobretudo redes sociais), como os comentários sobre Notre-Dame de Paris e um pouco sobre a autobiografia de Brigitte Bardot. Das coisas mais antigas que escrevi "em público" (ou seja, na rede, ao contrário de redações e histórias da infância), resgato agora breves comentários que eu fiz, quando adolescente, no começo dos anos 2000, sobre os romances de Jules Verne (com muitos nomes adaptados para o português, afinal de contas eu era mais propriamente um leitor de Júlio Verne), livros que me fascinavam muito e encheram minha cabeça de terras diferentes e conhecimentos geográficos e humanos que ainda hoje me encantam e interessam. É sempre um prazer reler ou conhecer mais obras do grande e visionário escritor nascido em Nantes, e é com um pouco de tristeza por não o ter lido com frequência nos últimos anos que começo o resgate de sua memória com a recuperação destas breves notas sobre as criaturas de alguns de seus principais trabalhos. Naturalmente algumas impressões podem estar defasadas, mas creio que a paixão de um jovem leitor é uma das maiores provas de perenidade literária, afinal; havia a tendência de maior detalhamento dos últimos livros lidos, razão por que Família sem nome está bastante abrangida e na parte de Viagem ao centro da Terra não falo nada sobre a noiva de Axel ou a governanta da casa dos Lidenbrocks. Por fim, ilustrando o espaço, coloquei as capas de algumas versões que li dos livros citados.


A volta ao mundo em 80 dias

 

Phileas Fogg- Um dos personagens mais conhecidos de toda a galeria das aventuras vernianas. Phileas é um excêntrico inglês, capaz mesmo de apostar metade de sua fortuna em uma empresa impossível para a época, 1872: dar a volta ao mundo em apenas 80 dias! Muitos contratempos, atrasos previstos e um grande atraso imprevisto não prejudicam nosso herói. 

Princesa Aouda- Princesa hindu mas de aparência européia, foi educada na Europa e prometida a um esposo que vira apenas quando criança, muito mais velho que ela e que, ao falecer, faz Aouda ser obrigada pelas tradições de sua religião a morrer junto com ele. Mas Phileas Fogg e Passepartout a salvam de seu destino. Casa-se com o primeiro. 

Jean Passepartout- O mordomo francês de Phileas Fogg, é um verdadeiro quebra-galho: já foi de tudo, desde bombeiro até professor de ginástica (!). Apesar de suas trapalhadas, foi aceito como mordomo por Fogg, a quem muito se apegou quando descobriu sua genorisidade e bondade. Fica com o amo até o final, mesmo quando achou que tinham falido. 

Fix- É o detetive encarregado de prender o astuto larápio que roubou enorme soma do banco da Inglaterra. Por sua viagem nada convencional e sua personalidade excêntrica, Phileas Fogg acaba alvo de suas acusações, pois sabe-se que Fogg tem muito dinheiro e gastá-lo nessa viagem é estranho. Fix não é mau, é apenas um sujeito ambicioso e infeliz.


Viagem ao centro da Terra

 

Otto Lidenbrock- É geólogo e professor em uma universidade na Alemanha. Muito austero e rigoroso, quando descobre a maravilhosa viagem que o documento cifrado do alquimista Arne Saknussemm revela não pensa em outra coisa a não ser empreendê-la. É ambicioso e não teme nada que poderá atravancar sua conquista. Arrasta junto Axel e contrata Hans para guiá-los. 

Axel Lidenbrock- Sobrinho do Prof. Otto, é ele quem narra maravilhosamente romanceada a jornada ao centro do globo. Medroso, mas realista, Axel deixa-se levar pelos delírios de seu tio e o acompanha em sua fantástica aventura. Muitas vezes quis voltar atrás, mas conteve-se e resolveu seguir adiante. Já passou sede, se perdeu e padeceu muito na aventura. 

Hans- Personagem deveras misterioso, quase ou nada se sabe sobre sua origem, apenas que é um caçador de gansos. É o guia islandês contratado por Lidenbrock para guiar a missão. É muito gentil e competente, mas incompreensível aos leigos, pois só se comunica em islandês, sua única língua. Passa o livro inteiro em trabalhos duros que a sua constituição robusta facilita.


Família sem nome

 

Simão Morgaz- O grande responsável pelos conflitos do livro. Traidor de sua pátria, acabou revelando às autoridades inglesas a trama para conquistar a independência dos franco-canadenses no Canadá do início do século XIX, pois foi acuado pelo belicoso Rip. Seus filhos e sua mulher sofrem até as últimas conseqüências seu crime. 

João Sem Nome- Protagonista do livro, João Sem Nome é simplesmente João Morgaz, que absteve-se de seu sobrenome por razões óbvias. Tenta reparar o erro do pai a qualquer preço. É o maior herói dos patriotas. Mesmo com todos seus esforços e os de sua família, seu passado vem à tona e é martirizado. Tem um final trágico e não consegue triunfar no seu objetivo. 

Joann- O irmão de João. Torna-se padre e prega de paróquia em paróquia a ressureição franco-canadense. Patriota como todos na sua família (com exceção de seu pai, o traidor Simão Morgaz), não hesita em se atirar de cabeça à causa nacional, fato este que culminou em seu sacrifício voluntário em lugar do irmão, garantindo-lhe o posto de herói pela causa. 

Bridget Morgaz- Mãe dos protagonistas, essa sofrida mulher não conhecia a conspiração de seu marido. Morre julgada e desgraçada, ao descobrirem o sobrenome que tanto asco motivava. 

Clary de Vaudreuil- Filha do Sr. de Vaudreuil, essa heróica donzela não pensa duas vezes antes de se integrar aos assuntos de respeito à pátria. Apaixonanda por João, morre junto com este. 

Rip- Sujeito sem escrúpulos, age a serviço da coroa. Ele que induziu Simão Morgaz à traição. Odeia obstáculos à sua frente e acaba com quem o atrapalhar. 

Senhor de Vaudreuil- Não é conhecido seu nome. Francês de nascimento, assim como sua filha é um enérgico patriota e morre pela pátria. 

Nick- Nicolau Sagamoro teve de deixar seu honrado posto de tabelião para governar uma tribo indígena da qual descendia. É honesto e bondoso. 

Leonel- Assistente de Nick. É um poeta nato e partidário dos patriotas. Fica muito empolgado quando seu chefe é honrado com o convite de governar a tribo indígena. 

Tomás Harcher- Ele e sua mulher Catarina vivem muito felizes, conseguindo a proeza de ter gerado 26 filhos! Alguns deles morreram em combate, ou ficaram feridos. 

Patriotas- Núcleo muito volumoso de partidários à pátria, que abriga, dentre outros, William Clerc, André Farran e Vicente Hodge, que era apaixonado por Clary de Vaudreuil.


Cinco semanas em balão

 

Samuel Fergusson- Este sagaz homem, membro de uma sociedade geográfica de grande prestígio, se propôs a refazer a rota dos grandes viajantes que o antecederam e descobrir, de uma vez por todas, as nascentes do Grande Rio: o Nilo. Munido de provisões e equipamento, ele, seu criado José e seu amigo Kennedy são os heróis de tão interessante viagem. 

José- Criado do doutor Fergusson. Rapaz de boa índole, muito inteligente e apegado a seu amo. Na viagem em balão que realizaram, durante cinco semanas a fio, arriscou a vida várias vezes para salvar a de seus colegas. Bem humorado, José Wilson adora conversar e é sempre otimista com relação ao sucesso da empresa tão arriscada na qual está envolvido. 

Ricardo Kennedy- Também conhecido por Dick Kennedy, este escocês, robusto e exímio caçador, tentou de todas as maneiras possíveis fazer Samuel desistir de sua tão arriscada viagem ao tomar conhecimento do empreendimento nos jornais, mas no fundo também queria viajar com o doutor e José. Depois de um tempo, acaba ficando empolgado com a expedição.


Um padre em 1839

 

Jules Deguay- Protagonista do livro, Jules é um advogado iniciante, que se descobre apaixonado pela jovem Ana, a quem salvou a vida. Dedica uma inexplicável amizade ao velho sineiro Joseph, até a morte dele. 

Michel Randeau- O melhor amigo de Jules, está sempre pronto para os desabafos dele e para uma conversa amiga. Vai junto com o amigo investigar a autoria e as razões do crime, mas são impedidos pelos perversos padre e bandido. 
 
Ana Deltour- Garota frágil, teve a vida salva por Jules no terrível crime cometido numa igreja. A bela Ana se vê disputada por dois rivais completamente diferentes: o simpático jovem e o diabólico Pierre. 

Pierre Hervé- De família humilde, Pierre acaba passando para o lado do mal, talvez por seguir carreira forçada. Alia-se a mais dois parceiros malditos e quer possuir Ana. É o padre que dá nome ao livro.

Abraxa- Velha bruxa, faz feitiços e rituais satânicos. Ama Pierre como a um filho, e compartilha com este as maldades que faz e planeja. 

Mordhomme- Bandido, assassino, pilantra, calhorda, é difícil achar uma boa qualidade para este sujeito. Junto com Pierre destrói as provas do crime que cometeram. 

Mathurin Hervé- Pai de Pierre, Jean, Jeanne e da pequena Marguerite. Homem de pouca sorte, é casado com a insuportável Catherine. Sua casa desaba e ele por pouco não perde a perna. 

Jeanne Hervé- Irmã de Pierre, esta linda moça tem a índole muito boa e ama sua família, ao contrário de seu desgarrado irmão. Ajuda o pai na hora do acidente.

Joseph- O velho Joseph morre na ocasião do crime na igreja de São Nicolau, deixando um segredo para Jules, o que poderá mudar a sua vida. 

Sr. Dorbeuil- O benfeitor da família Hervé, os ajuda após o acidente e após ter sido salvo da morte por Pierre e Jean. É ele quem encaminha Jean a um emprego e Pierre ao seminário. 

Catherine Hervé- A acomodada matriarca da família Hervé é fria, distante, amarga, e em conseqüência disso acaba morrendo no desabamento de sua casa, por ocasiões funestas. 

Dr. Turpin- Médico apresentado a Mathurin pelo sr. Dorbeuil, para socorrê-lo com sua perna, literalmente esmagada. 

Marguerite- A pequena e indefesa filha de Mathurin morre no desabamento. 

Jean- O irmão de Pierre, encaminhado a um bom emprego pelo sr. Dorbeuil. 

Saraba- Velha bruxa, maléfica e de aparência miserável, morre no dia do crime. 

Gustave Desperrier- Amigo de Jules e de Michel, morre no atentado da igreja.


Robur, o Conquistador

 

Robur, o Conquistador- Engenheiro responsável pela elaboração e construção de uma maravilhosa máquina voadora, de nome Albatroz. Desconhece-se a sua nacionalidade e sua origem. Sabe que o futuro da aviação consiste em máquinas mais pesadas que o ar, e rapta tio Prudente e Filipe Evans para convencer os irracionais balonistas disso. 

Tio Prudente- Não é tio de ninguém, mas recebeu essa alcunha por viver nos Estados Unidos, onde parece ser muito comum o emprego do termo. Presidente do instituto Weldon, na Filadélfia. O referido instituto nada mais é que um clube de onde participam os principais nomes da aviação globista. 

Filipe Evans- Secretário do instituto Weldon e eterno rival de tio Prudente, também é um globista inveterado, e mesmo diante das maravilhas do Albatroz mantém firme sua postura. Mais contido que seu colega, mas também cruel a ponto de planejar, junto a ele, uma terrível vingança por conta do rapto praticado por Robur, que se vingará. 

Fraicolin- Criado de tio Prudente, é um homem negro não muito eficiente e extremamente medroso. Foi também vítima do seqüestro de Robur. 

Tomás Turner- Contramestre do Albatroz, muito hábil. 

Tapage- Gascão, é o cozinheiro do Albatroz

Instituto Weldon- Tem entre seus membros Jem Cip, o vegetariano, e Guilherme T. Forbes.


O Senhor do Mundo

 

Robur- O mesmo engenheiro da obra anterior, que leva o seu nome, agora em poder de uma máquina muito mais poderosa que o Albatroz: o Assombro, que possui as múltiplas características de carro, avião, submarino e navio (!). Esse engenho prodigioso feito por ele o faz se nomear O Senhor do Mundo. Enlouquecido, Robur não pensa nas conseqüências de seus atos, a bordo do Assombro

João Strock- Narrador do livro, Strock é inspetor-chefe da polícia de Washington, e recebe ordens de Ward para investigar o mistério do Grande Ninho. Curioso e intrépido, Strock ver-se-á envolvido nos planos do talvez megalomaníaco, talvez heróico Robur, sendo assim levado a bordo da espantosa máquina Assombro

Ward- Não se sabe ao certo seu nome. Diretor-geral da polícia de Washington, Ward também anseia por saber a chave de todos os mistérios, o que o faz colocar Strock à frente das investigações. Ward faz vários contatos para Strock obter sucesso, mas não as coisas não correm do jeito esperado.


Os quinhentos milhões da Begum

 

Marcelo Bruckmann- Jovem alsaciano esforçado e muito competente. Consegue colocar em ação um plano audacioso para penetrar nos segredos da Cidade do Aço criada pelo maquiavélico Schultze. Verdadeiro herói e um filho que Dr. Sarrasin nunca teve, mas sempre sonhou em ter. 

Dr. Sarrasin- Cientista homenageado pelo Congresso Internacional de Higiene, por uma bela invenção que criara. Bom e altruísta, desejava apenas empregar sua parte na herança da Begum em fins humanitários. 

Schultze- Raivoso professor alemão que acredita na teoria da pureza da raça ariana. Vilão como poucos na bibliografia verniana, contrói a poderosa Cidade do Aço e se torna o magnata desse metal. Pretendia destruir por completo a Cidade da França e todos os seus habitantes, mas fracassa. 

Otávio Sarrasin- Filho do Dr. Sarrasin. Desaponta bastante o pai no sentido de que prefere diversão à obrigação. Caráter difícil, mas seu amigo Marcelo consegue endireitá-lo, para felicidade geral dos seus familiares. 

Família do Dr. Sarrasin- Os habitantes da casa do bom doutor, que, fora ele e seu filho, consistem em sua boa e paciente esposa e sua bela filha Joana, que, após crescer mais um pouco, casa-se com seu grande amor, o jovem alsaciano. 


A aldeia aérea

 

Max Huber- Ele quer mais que o inesperado: o extraordinário. Para esse francês, toda aventura é pouca. Ele quer emoções fortes. Mas quando se encontra preso na aldeia aérea almeja voltar à "civilização", o que acaba por acontecer. É exímio caçador. 

João Cort- Melhor amigo de Max, um americano valente e que, junto ao francês, adotou uma criança africana. Durante sua permanência na aldeia, aproveita seu tempo para estudos diversos acerca de sua população e seus respectivos costumes. 

Khamis- Guia africano de origem árabe, é sábio e precavido, permanecendo fiel aos seus amigos a trama inteira. Planeja de todo modo fugir da aldeia, povoada por seres estranhos que ele considera inferiores. Conhece muito bem várias regiões da África. 

Urdax- Desafortunado membro da expedição ao Congo, esse traficante português de marfim é sujeito pacífico e de índole amistosa. Fica amigo de todos, mas, durante um ataque de elefantes, acaba tendo fim trágico, por querer até o último instante, transtornado, defender seu lucro. 

Langa- Criança adotada pelos amigos Max e João, foi comprada de uma tribo africana e escapou, assim, de terrível destino. Gosta muito dos dois aventureiros e, sem instrução, é esperto e muito vivo. Faz amizade com Li-mai, o que garante a todos proteção na aldeia. 

Doutor Johausen- Explorador que, seguindo os passos de seu antecessor Garner, pretende estudar a linguagem dos macacos. Fracassa, porém, e termina seus dias gordo e demente, aclamado soberano (Msélo-Tala-Tala) da aldéia aérea, num triste fim para quem era tido como desaparecido. 

Li-mai- Pertencente à estranha raça dos wagddis, seres entre o homem e o macaco, vive em Ngala, a aldeia aérea, com seus pais. Salvo por Langa, essa pequena criança de fenótipo consideravelmente simiesco afeiçoa-se muito a ele e sua família protege a todos quando são feitos prisioneiros na aldeia.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Don Quijote de la Mancha

Breves impressões do magnífico Don Quijote de Cervantes, escritas respectivamente em 2 de fevereiro, 10 e 26 de abril de 2011, quando pude ler finalmente esse livro colossal:

Há cerca de três semanas resolvi perder um medo antigo e ler de uma vez por todas o Don Quijote (ou Dom Quixote) de Cervantes. O livro sempre me pareceu ser ótimo, todos comentam maravilhas dele e é considerado por todo mundo uma das melhores ficções já escritas; mas minha preguiça se devia a um problema antigo meu: sou MUITO lerdo para ler. O Quijote tem mais de um milhar de páginas, e isso me parecia muito desanimador. Mas aí tomei como resolução para o ano novo ler algumas pendências antigas acumuladas há anos. A edição do Quijote que estou lendo, a ganhei do meu pai em 2007. E vou falar: que livro MARAVILHOSO! Em todos os sentidos.

Primeiramente eu vou destacar a beleza do livro da Alfaguara, a edição em homenagem ao quatrocentenário da primeira parte do livro; além de um acabamento editorial perfeito, a edição tem mil apêndices, as portadas originais, explicações detalhadas sobre os arcaísmos da obra, um glossário extremamente completo e útil, mais o texto integral em espanhol com apontamentos que esclarecem, solidificam o entendimento e aguçam a curiosidade, aumentam a vontade de contextualizar o processo de escrita de Cervantes, suas fontes, influências, deixam claro as piadinhas de gramática, os erros (deliberados ou não) cometidos pelas personagens, as sutilezas empregadas na construção das frases, e tudo isso sem parecer intelectualóide, pedante, acadêmico (naqueles sentidos ruins), dando novos sentidos à compreensão do texto, auxiliando na busca por uma experiência completa de leitura. Vou dar um exemplo: no começo da obra, Cervantes descreve com muito detalhamento as roupas e modo de vida do nosso célebre fidalgo, e é preciso peneirar essas citações para entender como era absurdo para alguém JÁ NAQUELA ÉPOCA se deparar com o projeto de cavaleiro que era Don Quijote, que já usava roupas foras de época mesmo naquele início do século XVII, que tinha costumes assombrosos que já eram desconhecidos daquela geração etc.; sem essa ajuda, o leitor não se daria conta do IMENSO estranhamento das personagens ao encontrarem o fidalgo, e por que ele parecia sempre tão absurdamente deslocado e ultrapassado e ridículo.

Comecei falando da edição e já pulei para a história, não tem jeito; ela é tão lindamente narrada que eu, na minha proverbial vagareza, já devorei quase trezentas páginas e estou entrando na quarta e última parte do primeiro livro. Don Quijote e Sancho Panza são duas criações magníficas, donos de idiossincrasias e profundidades inigualáveis, funcionando por diversos movimentos que os fazem ser arquetípicos em praticamente todas as frontes: no idealismo, na amizade, na confiança, na ingenuidade, na iconoclastia fantasiosa, no valor, que, afinal, os dois possuíam e possuem, pois não morrerão jamais, vivendo com muita justiça a fama de serem dois dos mais famosos tipos da literatura em todos os tempos.

Por preconceitos infundados, imaginamos que, por tantas e tantas adaptações e referências, histórias clássicas assim já não possuem interesse ou nada de novo têm a nos mostrar; esse é o engano mais estúpido em que podemos incorrer, pelo menos em casos como o do Quijote cervantino, obra magnífica, estupenda, delirante, majestosa e que em todos os episódios e páginas merece o rol de elogios que o sonhador fidalgo consagra sempre à sua imagem de donzela, a Dulcinea que em verdade é Aldonza.


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Seguindo na leitura de Don Quijote, o caráter insólito de várias personagens me chama a atenção. Há alguns fenômenos peculiares que ocorrem com elas, e isso lhes dá uma dimensão muito particular. Alguns exemplos:

- Todos que zombam de Don Quijote gostam de ridicularizá-lo tratando-o por grande cavaleiro e a Sancho por exímio escudeiro; mas, velados na sua hipocrisia, favorecem a imaginação dos dois companheiros, e assim acabam tratando-os melhor do que se simplesmente desmentissem seus credos. Há uma cena na casa de duques, em que Don Quijote e Sancho são levados a crer, de olhos vendados, numa farsa de artifícios teatrais; não desconfiando da peça que lhes é pregada, eles terminam a tarefa com grande alegria por fazê-la chegar ao bem sucedido término. Então eu questiono: o que fizeram a eles é moral? Porque no final das contas eles ficaram muito satisfeitos, e cônscios do valor de sua jornada e ação.


- Quando Don Quijote se depara com algo desconhecido ou inexplicável, começa logo a falar dos encantadores perversos que o perseguem. O que pode parecer simples fantasia é na verdade a maior das coragens: reconhecendo como verdadeiro apenas aquilo que se lhe parece como tal, Don Quijote enfrenta o desconhecido com ânimo reforçado, como a dizer: "certas coisas encantadas não posso vencer; as demais, enfrento de peito aberto e valor posto à prova".

- Os delírios de Don Quijote não me parecem ser tanto fruto de loucura, mas de uma percepção distorcida da realidade. No fim das contas, ele de fato tenta consertar os tortos do mundo e ajudar aos necessitados, mesmo que para isso corra o risco de sofrer a incompreensão do mundo que o julga anacrônico e estapafúrdio. Mas o que é mais errado, ser um cavalheiresco cavaleiro andante numa época errada ou ser injusto, vil e sórdido como todos que se divertem tratando-o como uma aberração digna de risadas?

- Sancho por vezes tem seu amo como louco, outras vezes é reputadamente tido por muitos como ainda mais fora do juízo que seu mestre. Mas para qualquer efeito ele está sempre a postos, e é injusto tratá-lo como um simplório mentecapto, quando ele demonstra crescer a cada aventura, até falando de maneira mais polida, sonhando com grandeza, trazendo a lógica humilde da vida prática a situações que são descritas de maneira tão ímpar por Cervantes que somos até gratos a Sancho por ele nos lembrar que nada é o que parece (ainda que ele mesmo acredite no contrário, por vezes, como no caso do singular encantamento de Dulcinea).

- Há que se destacar a beleza inesperada dos conselhos que Don Quijote dá a Sancho quando o fiel escudeiro está prestes a finalmente tornar-se governador de uma ilha.

Minha leitura acaba provavelmente no fim do mês. Mas tudo isso cavalgará comigo para sempre no Rocinante imortal da minha lembrança. 


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Eu estou no fim da leitura de
Don Quijote, a menos de cinqüenta páginas do término, e a sensação é dúbia: por um lado sinto-me extremamente feliz por ter lido uma obra tão linda e fascinante, e por outro é como se eu estivesse deixando uma parte de mim com a leitura. Acompanhei durante mais de três meses os devaneios do fidalgo e seu escudeiro, os dramas e comédias de que foram vítimas e também a vida de mil pessoas com que se depararam. E aí acabo assim, numa semana qualquer, já pensando no próximo livro a ler. Don Quijote morto mas imortal.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sargento Getúlio

Às vezes nos esquecemos que o Brasil é antes um continente que um país, e que em toda a sua extensão temos mil sotaques, aparências, culturas. Há grandes distâncias, grandes abismos. Um livro como Sargento Getúlio faz pensar também em outras distâncias além das geográficas, e ao mesmo tempo sua regionalíssima história nordestina é tremendamente universal: converge-se no romance de João Ubaldo Ribeiro o universalismo com o exclusivo de uma terra e época. Pouco mais de quarenta anos após sua publicação original, esse multidimensionalismo ainda é extremamente novo, original e ousado, por vezes chocante.

Pois em Sargento Getúlio a premissa simples (espécie de jagunço a serviço do coronelismo transporta um prisioneiro de um ponto a outro em Sergipe) como que se abre num despetalar de vozes e consciências que é mais impressionante porque quase unificado na figura-título, narradora da história. Diferente de todos os narradores em primeira pessoa, Getúlio solta seu fluxo de pensamento sem rigidez de estilo, parecendo por vezes uma carta de confissão, um delírio, uma confidência, um desabafo, um manifesto, uma ameaça (poderia continuar indefinidamente). Por meio de uma prosa atabalhoada, define-se o caráter, o histórico e os ideais (e as ações e compromissos) do sargento, de seus colegas e seus conhecidos — inclusive o do "coisa", o "traste", o transportado, a quem Getúlio despreza e chega a lhe deformar o rosto, numa cena de violência impactante (superada por outras). E a política, os desmandos, o jogo dos graúdos (e do "chefe" de Getúlio), o papel da imprensa? Tudo lá.

A violência é, aliás, uma das tônicas do relato. Um falar sujo, forte e definitivo, ainda que atropelado, desordenado e amórfico. Os adjetivos abundam, mas não é um romance de adjetivação. É uma experiência essencialmente sensorial, narrativa oral que em verdade não se parece com a transposição de diálogos mas como um encadeamento estilístico de ideias que só encontram sentido quando se apresentam literariamente. Mas é bom de imaginar os sons que surgem das linhas, e bom ler em voz alta o máximo que se puder extrair dos oito capítulos do pequeno romance — o fluxo ininterrupto dos monólogos contraditórios de Getúlio, começando por um primeiro parágrafo de quase duas dezenas de páginas!

É difícil falar de uma obra como essa sem parecer omisso ou necessariamente desnecessário. Pois seu vigor não está em nada posterior a ela, como análises e críticas, mas em suas páginas e na construção brilhante que João Ubaldo Ribeiro desenvolve a partir da insistência, do esforço e da paciência. Até que tudo parece fazer sentido, mesmo que não o tenha (e é preciso?). As formas quebradas, os engasgos, as interrupções, os caminhos tortuosos levam, afinal, à verdade. A verdade do romance, da vida. (É difícil não querer fazer poesia após ler um tal poema em prosa).

O livro teve grande e merecida repercussão, com entusiasmados elogios de Erico Verissimo, Jorge Amado, Fernando Sabino, prêmios e mais prêmios, comparações a Guimarães Rosa e a Graciliano Ramos e traduções em várias línguas (sendo a tradução em inglês feita pelo próprio autor). Houve edições sucessivas (a minha é a décima, de 1989) e até uma adaptação para o cinema, com roteiro co-escrito pelo romancista, que posto a seguir, junto a uma de suas entrevistas mais recentes (Sargento Getúlio é referenciado em vários momentos). Mas de que tudo isso se não para o livro? É ele que interessa, e espera-se que Getúlio, com sua verborragia, com seus causos e sua macheza, seu orgulho e seus princípios, seus arroubos e paixões, ainda faça muitas viagens em sua curta mas eterna jornada literária.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Os quatro romances de Lygia Fagundes Telles

Em 2008 li Ciranda de pedra e fiquei muito impressionado. Aos poucos fui lendo outros livros de Lygia Fagundes Telles, e verdade que se poucos me impressionaram tanto quanto o primeiro (meu outro favorito dela é um de contos, Seminário dos ratos), foi muito bom ir aos poucos lendo o resto de sua obra e acompanhar paulatinamente sua evolução de temas, personagens e estilos. Terminei ontem seu último romance, As horas nuas, lendo cada um deles na ordem em que foram escritos/publicados. Eu vejo uma nítida gradação de alguns temas, e mesmo a meu ver suas personagens vão envelhecendo junto com ela. Comentando brevemente cada um dos livros:

Ciranda de pedra (a infância): concentra-se em Virgínia, jovem que se vê às voltas com as diferenças entre o que esperam/querem dela e as percepções que possui do mundo e da vida. Com uma narração extremamente delicada e sugestiva, acompanhamos o crescendo do inconformismo da moça e suas relações problemáticas com as irmãs (Bruna e Otávia), sua paixão (o indeciso Conrado) e os adultos que vagueiam ao redor dela um pouco como espectros, sem adentrar seu mundo e sem procurar compreendê-la. Aparecem na trama assuntos polêmicos como eutanásia, loucura, suicídio, lesbianismo, incompatibilidade familiar. O livro foi bem recebido e colocou a autora, que havia publicado livros de contos com relativa repercussão, em destaque na nova literatura contemporânea brasileira. Foi adaptado duas vezes para novelas televisivas, que, não sabendo lidar com o material "controverso" do romance, pasteurizaram o livro até as raias do inócuo e insosso. Virgínia é uma personagem solitária, que precisa encontrar em si mesma, sem qualquer ajuda exterior, a força para seguir adiante mesmo com suas dúvidas e temores, em meio a grotescos cotidianos. Considero um pouco um "romance casulo", e Virgínia passará de lagarta a borboleta até o final da narrativa. Publicado em 1954.

Verão no aquário (a adolescência): Raíza é a jovem da vez. Menos reprimida que Virgínia, a jovem desfila de calcinha pela casa e se interessa por um homem mais velho, entrando em uma disputa "fria" com a própria mãe, que evidentemente não a entende. O confronto entre a imaturidade da juventude e a experiência grave e culpada de uma figura mais velha autoritária (mesmo que involuntariamente) é um dos principais elos entre todos os quatro romances; mas aqui se começa a discutir problemas psicológicos mais graves, e também as drogas vão se insinuando, o sexo como forma de punição passa a co-existir com certo desprezo pelas pessoas (notadamente por Marfa, desagradável presença)  — uma vaga misantropia que passa a ser mais acentuada pela mudança estilística que faz Raíza, diferentemente de Virgínia, exprimir-se em primeira pessoa. A jovem parece serenar um pouco próximo ao fim do romance — um pouco o caminho contrário seguido pelo Eduardo Marciano de O encontro marcado, de Fernando Sabino, que possui muitas semelhanças com a moça —, quando ocorre um acontecimento que pode ser definido como o clímax do relato, divisor de águas na personalidade de Raíza. Publicado em 1963.

As meninas (a mocidade): talvez o romance mais ambicioso de Lygia Fagundes Telles, com uma profusão de temas e pontos de vista, pois desta feita temos três narradoras - Lia, a "guerrilheira", Ana Clara, a perdida nas drogas, e Lorena, a burguesa em crise. O livro é intercalado pelas diferentes vozes narrativas, com diversas pontuações, vocabulários e mentalidades. Possivelmente a narração mais bela seja a de Ana Clara, totalmente despida de vírgulas, num torpor visceral que é quase como uma confissão ao leitor. Mas a personagem mais "positiva" é Lorena, que talvez seja a única das três meninas que afinal pode se salvar ainda. Nesta história vemos relatos intensos sobre a ditadura militar brasileira e seus métodos de tortura, o reacionarismo social e a decadência de valores da classe média. É o livro mais famoso e aclamado da escritora, ganhador de vários prêmios e inclusive adaptado para o cinema. Escrito durante os anos mais repressores do regime militar, demonstrando uma inquietação algo corajosa e uma proposta política de conscientização até então sublimada em sua ficção, além de potencializar o drama e o contexto por que passam as personagens ao longo do livro. Publicado em 1973.

As horas nuas (a maturidade): o romance com mais perspectivas, e pela primeira vez algumas masculinas. Pode-se centrar o discurso em dois núcleos: Rosa Ambrósio, os três amores da atriz decadente e alcoólatra, e seu gato Rahul, visionário de vidas passadas e crítico da civilização; e Ananta, a introspectiva psicóloga/terapeuta de Rosa Ambrósio, e seu primo Renato. O discurso alterna-se entre direto e indireto livre, causando por vezes estranhamento pelo ritmo irregular. É o romance menos convencional da autora, e ao final praticamente nenhuma intriga ou conflito é resolvido, mesmo após uma guinada que praticamente muda o gênero de ação e propõe um novo problema (com uma substituição de personagens bastante curiosa); é como se a narrativa apenas se houvesse ocupado de breves instantes retirados de suas vidas, como fotografias retratando momentos aleatórios de existências que nunca chegamos a compreender realmente. Também é seu romance mais parecido com seus contos, adotando em certas passagens elementos do sobrenatural, do hermético emocional e de um jogo de espelhos intrincado e sem solução. Publicado em 1989.

Lygia, aos 89 anos, fica nos devendo um romance sobre a velhice (a velhice temida por Rosa Ambrósio e sequer cogitada por Virgínia). O principal problema que vejo em seus romances é o acúmulo de interjeições/imprecações que se repetem, como chavões ("compreende?", "pombas", "ô! meu pai"), e tornam de alguma maneira aquelas personagens mais estereotipadas e menos críveis. Ciranda de pedra não possui esse recurso, e também é o único de seus romances narrado exclusivamente em terceira pessoa (onisciente). Talvez por isso, ou por eu gostar muito de histórias sobre a juventude, seja meu favorito — mas também acho que por Virgínia me lembrar um pouco a Suzanne de À nos amours, um dos meus filmes favoritos e retrato perfeito das perturbações que separam a vida infantil da adulta.

O quinto romance de Lygia Fagundes Telles, sempre prometido e anunciado mas nunca parido, ainda está por nascer.

domingo, 21 de outubro de 2012

Vidas secas

Prosseguindo com os resgates de escritos meus, algumas breves impressões sobre o maravilhoso romance/novela Vidas secas logo após eu tê-lo lido, escritas em 17 de abril deste ano:

Vidas secas - Graciliano Ramos

Um petardo.

Primeiro que é gostosíssimo de ler. Admirei-me de o discurso indireto ser tão próximo de Erico Verissimo (ou vice-versa), muito simples e incisivo psicologicamente, quando esperava encontrar quase um tratado sociológico e político sobre as secas e os retirantes, a situação crítica do sertão e das famílias sertanejas.

É uma história totalmente humana, de grande carga emocional, figuras perfeitamente profundas e tocantes. Difícil não se solidarizar com a nobreza das personagens.

Mas o capítulo mais doloroso é aquele dedicado a Baleia. Não sei se por ela ser humanizada, mas a descrição de seu ocaso é tão maravilhosamente construída e tão incrivelmente dramática que me causou quase mal estar ao ler, é muito, muito, muito triste. Como seus sentimentos são abordados, como ela entende sua nova "condição", como as pessoas envolvidas no caso reagem.

O resto do romance é surpreendentemente esperançoso, apesar da melancolia a cada nova provação do destino, a cada nova desgraça advinda de uma condição social um pouco irreversível. Mas seguimos torcendo e acreditando que no futuro aquelas gentes conseguirão um pouco de dignidade, pois são fortes e demonstram grande força de espírito para sobreviver e vencer, apesar de o sistema em que estão inseridas ser plenamente contra seu progresso e evolução.


Obs.: Escaneei a capa da edição que possuo, não a encontrei na internet (pelo menos não com uma qualidade satisfatória). Não é a capa mais bonita que esse livro já possuiu em sua longa trajetória editorial, mas espero com isso contribuir minimamente para os esforços de homenagem aos 120 anos de Graciliano Ramos, completados daqui a seis dias.

sábado, 13 de outubro de 2012

Notre-Dame de Paris

Continuando com meus resgates, eis o que escrevi sobre Notre-Dame de Paris no dia 15 de fevereiro. Há poucos minutos escaneei a capa do livro que postarei aqui, nunca a encontrei na internet. Essa capa me impressionou muito desde criança, por sua atmosfera sombria e trágica, a resignação da jovem sacrificada e a imobilidade grave das pessoas que a observam, julgam e acusam. Uma ilustração de tremenda força, que deixou uma viva marca na minha memória durante mais da metade da minha vida.

Notre-Dame de Paris - Victor Hugo 
 
Pendência antiquíssima, já que desde garoto eu fiquei apaixonado pelo longa animado da Disney e queria muito ler o livro. Cheguei inclusive a comprar, lá por 96, o traduzido integral (aqui em casa tem o integral em francês, que foi o que li agora); mas a dificuldade do livro me assustava bastante, e só agora resolvi vencer essa tarefa.

De fato, livro dificílimo. Em termos de vocabulário, sem dúvida alguma o livro mais difícil que li em francês. Além disso, é extremamente extenso: centenas e centenas de páginas, com letra minúscula, descrição minuciosa etc.

E o Hugo "não ajuda": há capítulos incrivelmente longos sobre arquitetura, procedimentos burocráticos da legislação da realeza, além de um latinório sem fim (e sem tradução). Nesses pontos, é uma leitura BASTANTE cansativa, algo desanimadora. Sem contar as "armadilhas" pelo meio do caminho: as cem primeiras páginas, por exemplo, são protagonizadas por Pierre Gringoire, dando a impressão de que era o protagonista do livro; no restante do romance, entretanto, Gringoire mal aparece, relegado a uma "coadjuvância" bastante peculiar (todavia, importante).

Mas no mais é uma beleza de romance! Eu adorei conhecer como são "de verdade" personagens que sempre povoaram minha cabeça. E eles são muito complexos e diferentes do que eu estava habituado: a Esmeralda é ingênua, um tanto fútil; Phoebus é um conquistador inconsequente e sem escrúpulos; Quasímodo é introspectivo e violento, forte, perturbado.

E chegamos ao grande personagem do relato: Claude Frollo, o arcediago (no filme da Disney ele é uma espécie de juiz eclesiástico). Desde já um dos personagens mais incríveis com que me deparei na literatura. O capítulo em que se declara à adolescente é de chorar de tão bem escrito e intenso. Um homem de psicologia fascinante, e Hugo descreve sua cabeça e seus sentimentos e ações com TANTO brilhantismo que para mim é como se ele fosse o herói da história.

Uma saga de amores impossíveis, obsessão e desencontros. Belíssimo livro.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O homem que calculava

Seguindo na operação resgate, comentários escritos dia 24 de fevereiro:

O homem que calculava - Malba Tahan
  
Outra pendência da minha infância: havia lido parte do livro e abandonado, não sei se por medo ou preguiça. Mas o caso dos 35 camelos nunca havia saído da minha cabeça (creio que parei ali ou pouco depois), e após ler certos elogios à obra acabei resgatando esse curioso romance (mesmo que em outra edição, pois a que eu tinha desapareceu) e comecei a lê-lo. 

Ele tem certas falhas estruturais, diria: a começar pelo personagem narrador, que é uma figura totalmente unidimensional e que só serve de suporte ao protagonista-título, sendo bem forçadas suas reações a certos eventos e esquisita sua narração. E como entender o bizarríssimo final com a conversão do calculista? Um livro em que as personagens vivem inseridas em profunda religiosidade e a invocam para qualquer feito ou ação, como assim de repente toda a fé é renegada em prol de outro credo, encerrando a história com uma moral convencional bastante tendenciosa? 

Mas isso tudo é o de menos. O romance é muito engenhoso e os enigmas, desafios, charadas e problemas são incríveis. Beremiz Samir é um personagem de presença fabulosa, dando ao leitor a serenidade de perceber que todas as soluções matemáticas são, afinal, fáceis, pois simples e lógicas. É um prazer acompanhar o "crescendo" de expectativa com as bizarras proposições a ele formuladas, e como imaginar a saída de várias delas? Está tudo diante de nossos olhos, mas Beremiz Samir é quem tem a calma e a tranquilidade de compreender essas regras, de expor o que é natural mas pouco observado. Ainda que suas faculdades pareçam inumanas às vezes, como quando diz quantas letras e palavras tem o Corão. 

O exotismo do oriente árabe é um pano de fundo interessante, que Malba Tahan define em poucas mas detalhadas descrições, ambientando bem a intriga e criando um bom pano de fundo histórico, com personagens reais e os hábitos do cotidiano e do professar religioso e político daquela gente. Também nisso o relato é feliz. 

Agora a vontade é de procurar mais de Malba Tahan mexendo com isso.

P.S.: Acabei encontrando minha edição antiga (cuja capa é essa de fundo branco aí em cima).

P.S. 2: Acredito que o final convencional foi uma imposição do Estado Novo, pois o livro foi publicado em 1938.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Deux anglaises et le continent

Continuando com o resgate, impressões minhas sobre o segundo romance de Henri-Pierre Roché, escritas dia 14 de abril deste ano:

Deux anglaises et le continent - Henri-Pierre Roché
(Duas inglesas e o continente)

O livro que inspirou o "As duas inglesas e o amor", do Truffaut. A primeira surpresa: é um livro composto APENAS de diários e cartas. Isso dá uma intimidade incrível ao relato, tornando críveis todas as incoerências das personagens e possibilitando ao leitor observar como elas se portam na privacidade, como se expressam e como desejam se manifestar e contar as coisas que se passaram com elas. É delicada a forma como a passagem do tempo é trabalhada, sendo que as datas das cartas e diários vão de 1899 (quando Claude, "o continente", tinha 19 anos e conheceu Anne, uma das duas inglesas) até 1927. Fica apenas uma impressão estranha no fim, pois apesar de ser um belo término é de se pensar: por que a comunicação é interrompida ali? Apesar de haver um evidente sentido de "renovação" no último caso narrado, fica o desejo por saber ainda mais daquelas vidas, o que é um triunfo e tanto do livro.

Roché escreveu antes "Jules e Jim", mas acho que este livro é bem mais feliz. A beleza "telegráfica" das frases curtas está bem melhor dosada que no romance anterior, e as personagens não parecem apenas fazer coisas estranhas e aleatórias: há um sentido inclusive na incoerência de certas passagens, o que demonstra nas pessoas do livro fraqueza, confusão mental, ingenuidade, esquecimento ou qualquer outra coisa equiparada. É uma decisão muito bonita, expor a nobreza dessas fragilidades.

Assim como no filme, a personagem que mais me encantou foi Muriel, dividida entre a religiosidade primitiva e uma forte independência de espírito. Anne, sua irmã, é mais decidida a não ligar para convenções.

Há coisas bastante polêmicas e intensas no livro: desvirginamentos, masturbação (feminina!), prostituição. É nítido o desejo de Roché de não esconder nada (afinal, é quase uma autobiografia sua), e desenvolver as ideias com serenidade e grande beleza, mesmo quando as coisas parecem desesperadamente grotescas.

Um belo romance, confissões de um autor que já beirava os oitenta anos.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A turma do gordo

Há na nossa infância uma tendência a "reutilizar" muitas vezes as coisas que consumimos culturalmente: assistimos uma infinidade de vezes a nossos filmes favoritos, lemos repetidamente as mesmas revistas, coisas que hoje, com nosso cardápio de opções cada vez mais vasto e infindável, parecem bem distante do nosso pensamento. Uma das coisas que eu lia e relia e relia de novo quando era mais jovem eram os livros da turma do gordo, escritos por João Carlos Marinho.

A fórmula para os livros é em espírito bem simples: um punhado de crianças (com a idade parecida com a de seus leitores, uns dez, onze anos) vivendo aventuras e deparando-se com perigos e enrascadas. Sim, é uma ideia simples, em conceito; mas em execução a coisa é bem menos fácil do que dá a entender.

Eu vejo esses livros um pouco como seguindo as pegadas de Monteiro Lobato: histórias cujo único freio é o fim do livro, e até lá tudo pode acontecer, com muito humor e respeitando sempre o público leitor. Assim como as personagens lobatianas, os personagens da turma do gordo já viajaram pelo espaço, já encontraram entes sobrenaturais ou simplesmente vivem na gostosa modorra cotidiana que os espera em seu dia a dia de crianças.

Na verdade, essa aproximação é menos imaginada por mim que planejada pelo autor: João Carlos Marinho é grande apreciador da obra infantil de Monteiro Lobato, e inclusive pode-se encontrar em alguns livros teóricos/críticos sobre essas obras alguns comentários e análises que ele fez ao longo dos anos, debruçando-se sobre as pouco mais de vinte aventuras da turma do sítio de Dona Benta — vale consultar o excelente "Monteiro Lobato, livro a livro - Obra infantil", organizado por Lajolo e Ceccantini. É possível também encontrar em livros da turma do gordo várias referências às personagens e aventuras de Narizinho, Pedrinho, Emília e companhia. Dois exemplos: em um de seus livros uma personagem reclama por as criaturas lobatianas serem tão bem desenhadas nos livros, dando, na visão de Marinho, pouco espaço à imaginação construtiva dos leitores. Ele vai além nessa idiossincrasia e, por contrato, seus livros não podem ter NINGUÉM da turma desenhado; as ilustrações das obras são abstratas, colagens e afins, e ao leitor é negado o rosto gráfico de personagem que seja. É uma decisão bonita, algo anacrônica, bastante romântica. Isso já demonstra o quanto ele se importa com seu público, o que ele, como autor, espera de seus leitores. João Carlos Marinho não deseja leitores passivos.

O segundo exemplo que mencionei é extraído de seu mais recente livro do gordo (e, presumivelmente, o último, segundo ele declarou em entrevistas e palestras), "Assassinato na literatura infantil": o troféu concedido pela mãe do gordo ao vencedor do prêmio de melhor livro infantil é batizado com o título do sábio Visconde de Sabugosa e tem a efígie do mítico e azarado sabugo de milho. Li o livro semana passada e é uma gostosa trama de suspense, com uma bela atuação da turma do gordo, composta nesse último livro pelo gordo (Bolachão) — líder da patota —, Berenice (sua namorada), Biquinha, Edmundo, Silvia, Mariazinha e Pituca. Também participam das cenas o irreverente mordomo Abreu, o desbocado frade João, o simpático delegado dr. Paixão, os pais do gordo (Marcelo e Celeste) e seu cachorro Pancho. Alguns personagens de outras aventuras, como Zé Tavares e Hugo Ciência, estão ausentes desta vez.

A meu ver, a grande "sacada" da coleção é tornar os personagens totalmente próximos ao leitor juvenil. Se esse leitor for paulistano, então, aí se torna vizinho de toda a turma do gordo: João Carlos Marinho fala de ruas e locais realmente existentes (a Berenice, por exemplo, mora na rua Fradique Coutinho), de colégios que de fato estão edificados na capital paulistana, tornando tudo muito crível e ao alcance de seu jovem público. Eu lembro que quando comecei a ler os livros tinha meus onze, doze anos, e no meu curso de inglês havia uma menina que para mim era a Berenice pura e perfeita. Por ela não ser ilustrada, era a imagem que eu tinha na cabeça, era assim que eu a tinha como menina daquela faixa etária, e é esse um mérito de João Carlos Marinho: trazer amigos reais para as crianças do ensino fundamental.

Como toda obra infantojuvenil de qualidade, esses livros não são indicados apenas a seu público-alvo. Quem puder se debruçar sobre essas histórias (doze, ao todo) de Bolachão e seus amigos irá ficar encantado com a espontaneidade na construção dos caracteres das personagens e com a sutileza do humor das tramas. E concluir que realmente uma série que agrada a leitores de diversas gerações há mais de quarenta anos há de ser uma série com ingredientes bastante especiais.

P.S.: No final dos anos 1990 troquei uma boa correspondência com João Carlos Marinho. As cartas são o testemunho do entusiasmo que os livros despertavam em um garoto que adorava ler e viver aventuras (e ainda adora, mesmo crescido).