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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Asterix, o gaulês

Asterix, um dos personagens mais célebres e populares dos quadrinhos mundiais, nasceu em 1959, nas páginas da icônica revista Pilote, pelas mãos do desenhista Albert Uderzo e o prolífico roteirista René Goscinny (que também escreveu os melhores momentos de Iznogoud e Lucky Luke). Nasceu sob muitas ideias, sobretudo duas: retomar satiricamente a identidade francesa, abrangendo histórias passadas na antiga Gália Celta, e derrubar alguns estereótipos clássicos dos quadrinhos históricos e de aventura, dando a luz do protagonismo a uma figura baixinha, feiosa, bigoduda e bastante ridícula em aparência.

Se nasce como uma espécie de paródia, Asterix aos poucos consegue libertar-se das limitações de concepção e cresce; não em tamanho, pois o diminuto guerreiro gaulês sempre foi e será baixíssimo de altura. Mas cresce em qualidade, em experimentalismo, em ousadia, em brilhantismo. Aos poucos os textos geniais de Goscinny e os desenhos fluidos e engraçados de Uderzo conquistam seu espaço e vão arregimentando legiões (ironia) de fãs e admiradores, que fizeram dessa série de pouco mais de trinta álbuns (uma quantidade até pequena, se considerarmos as décadas de vida do quadrinho) um sucesso estrondoso e dificilmente igualado, que originou uma profusão incrível de jogos, filmes, animações e até mesmo um parque (!), localizado em Paris (a Lutécia da Roma antiga).

Estamos em 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos. Toda? Não! Todos sabemos da aldeia dos irredutíveis gauleses, que desafiam César e seu poderio e resistem hoje e sempre ao invasor. Magnífica experiência imaginativa, Asterix é um giro pelo mundo conhecido na Antiguidade: Roma e suas fronteiras, a Helvécia (Suíça), a Hispânia (Espanha/Portugal), a Bretanha (Inglaterra), a Normandia (Noruega), não há terra por onde os gauleses não tenham estado, e nem personalidade histórica com que não tenham deparado — além de César, comum encontrarmos Brutus, Pompeu, Cesário (Ptolomeu XVI), Cleópatra... E ainda o reforço de coadjuvantes bem pensados e dosados: comerciantes fenícios, artesãos gregos e egípcios, piratas e afins. Todo um mundo em Asterix.

Mas não é só por esses aspectos que Asterix é grande. É difícil falar de uma série como essa, pois cada elemento parece ter sido cuidadosamente desenvolvido para um efeito, geralmente com ótimos resultados. O humor, por exemplo, que torna hilária cada trama, que desenvolve cada caráter das personagens (variadas, delirantes, críveis), que transforma o cotidiano corriqueiro da pequena aldeia da Armórica em uma festa de graça, de espírito e de engenhosidade. Goscinny faz cada personagem e situação serem embutidos com a mais intensa percepção da sátira convincente e humana; Uderzo pincela habilmente as expressões, movimentos corporais e gestuais para que não tenhamos aquelas gentes e coisas como eventos de papel, mas como realizações cheias de dimensão e profundidade. Um casamento perfeito.

Casamento desfeito com a prematura morte de Goscinny em 1977, aos 51 anos de idade. De 1959 a 1977 os álbuns de Asterix floresceram como quintessência do mais alto grau do humor nos quadrinhos europeus (e de todo o planeta). Seus vinte e três álbuns e meio (faleceu no meio da produção de Asterix entre os belgas, o 24º livro da coleção) são um testemunho de vigoroso talento e extremada competência. Tudo que ele fez no período é digno da mais alta reverência. Meus particulares destaques vão para perfeições como A cizânia, Asterix entre os normandos, Obelix e companhia e O domínio dos deuses.

Com a morte de Goscinny, houve o medo da interrupção definitiva de Asterix. Numa decisão algo estranha, Uderzo resolve ir além dos desenhos e também roteirizar as aventuras de Asterix, seu grande (até literalmente) amigo Obelix e demais gauleses. O primeiro álbum nessas condições, após a finalização do inacabado por seu parceiro René, foi O grande fosso, seguido de seu melhor momento "solo": A odisseia de Asterix. Infelizmente, Uderzo revelou-se terrível roteirista, e, pior, continuísta sofrível: as histórias escritas por ele por vezes eram desconexas das talhadas por Goscinny, com erros de dados (como o aniversário de Asterix e Obelix, contrastante em Obelix e companhia, de 1976, e Asterix e Latraviata, vindo à luz em 2001), problemas de caracterização das personagens (o "poder especial" do bardo Chatotorix em As mil e uma horas de Asterix), ou até mesmo heresias contra o próprio espírito da série e as estruturas da saga toda, como no terrível A galera de Obelix, em que o personagem-título faz algo que não deveria nunca fazer, por proibição do druida Panoramix. O último álbum de Uderzo foi O dia em que o céu caiu, que fecharia de vez a coleção (a capa era uma espécie de reverso da capa do primeiro álbum, inclusive).

Inesperadamente, há relativamente pouco tempo, Uderzo mudou de ideia e resolveu passar a série adiante. Em 2013 houve a estreia mundial de Asterix entre os pictos, primeiro álbum de Asterix sem participação de Uderzo (que fez apenas o desenho de Obelix na capa). Jean-Yves Ferri assumiu os roteiros, desenhados doravante por Didier Conrad. O novo livro, feito um tanto apressadamente, não foi dos mais satisfatórios (apesar de não ser ruim como os piores da fase solo de Uderzo), mas ainda é cedo para falar do futuro da série. O que se pode falar é que Asterix continua fazendo um colossal sucesso (o novo álbum vendeu como água), e muita água virá para frente. Água ou poção mágica, com muita disposição para caçar javalis, destruir acampamentos romanos ou simplesmente divertir, entreter e encantar os leitores que há cinquenta e cinco anos acompanham entusiasmados os banquetes, viagens e inúmeras brigas dos habitantes da aldeia chefiada pelo "colérico" Abracurcix. Ave!

Nota 1: Clicando sobre as figuras, é possível vê-las em tamanho maior; atentar para a diversidade de personagens e o detalhamento de Uderzo.
Nota 2: Optei por escrever os nomes em português, com as traduções e sem acentos. Quem souber francês terá em Asterix farto material de riso, com tiradas como o bardo chamando-se Assurancetourix, transposição marota de uma publicidade de seguro de vida que "cobre todos os riscos".
Nota 3: Os nomes terminados em "ix", são claro, homenagem ao líder gaulês Vercingetórix, que depôs as armas aos pés de César (feito mostrado literalmente em O escudo arverno); romanos têm nomes terminados em "us", egípcios em "is" etc.
Nota 4: Há MUITO o que se dizer sobre Asterix, e claro que este texto é pálido rascunho do que já foi mais do que dissecado em comentários, estudos, críticas, teses, reportagens e inúmeras outras formas de análise. Como uma demonstração da amplidão da influência e do alcance e popularidade alcançados pela série, estão expostos a seguir a ótima abertura do primeiro filme live action, estrelado por Christian Clavier (Asterix) e Gérard Depardieu (Obelix), a íntegra do melhor longa de animação com os personagens de Goscinny e Uderzo (e o único com roteiro original), um dos vários documentários com entrevistas sobre os autores do quadrinho, um exemplo de game inspirado em Asterix e uma pequena conversa dos novos autores da série, Ferri e Conrad.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Lucky Luke

Lucky Luke é uma longeva série de faroeste cômico, criada em 1947 pelo desenhista Maurice de Bevère, ou Morris. Assim como com Tex, Ken Parker e outros gloriosos ícones do western, durar tantas décadas mesmo após a virtualmente inquestionável extinção de seu gênero-base significa que estamos diante de um quadrinho especial, de um personagem de grande força e apelo. Lucky Luke não sai de moda jamais, sendo sempre alvo de mais e mais lançamentos: seu último álbum até o momento, Cavalier seul, saiu ano passado e é o incrível 115º da série; há séries spin-off dedicadas a suas aventuras quando pequeno (Kid Lucky, onde ao invés do tradicional revólver nosso mocinho empunha um certeiro estilingue!) e ao cachorro bobo e adorável e burríssimo Rantanplan, clássico suporte das aventuras de Lucky Luke com seus arquirrivais, os irmãos Dalton; houve também filmes e o mais recente saiu em 2009, com Jean Dujardin no papel-título.

Eu sou bastante familiarizado com o faroeste, desde criança, e digo sem pestanejar: foi Lucky Luke quem me introduziu a esse mundo. Foi lendo essa coleção que eu fui apresentado aos terríveis outlaws Jesse James e Billy the Kid, que conheci/descobri as diligências, os telégrafos, os sinais de fumaça indígenas (e algumas palavras, como papoose, o equivalente ao nosso "curumim"), os elixires "milagrosos" que os charlatães vendiam às pencas, os repulsivos caçadores de recompensa, o tratamento dado aos imigrantes nas novas terras de fronteira, os saloons (com toda sua fauna de dançarinas, jogadores e embusteiros), o começo da imprensa (GO WEST, YOUNG MAN, GO WEST, Horace Greely!), as falsificações de cédulas, as amplidões das pradarias, os caça-níqueis, as forcas, as divisões e ranqueamentos do exército, as guerras de propriedade (com arame farpado e demarcações fraudulentas), entre inúmeras outras coisas. Cada volume de Lucky Luke é um pouco uma aula histórica, com sua sátira pontual não sendo assim tão irônica se percebermos que a epopeia do faroeste (e praticamente toda a civilização humana, pois o faroeste é um microcosmos de todo o proceder humano, talvez) foi calcada sempre em violência e em personagens estranhamente folclóricos, algo já dados à caricatura, a uma representação extremada e mítica.

Lucky Luke é também uma série de grande visão por perceber que ser uma paródia não necessariamente descredencia a pertinência incisiva de uma narrativa. Com suas brincadeiras e releituras, Lucky Luke acaba sendo por méritos próprios um dos melhores registros do que houve naquele período (final do século XIX) nos Estados Unidos e adjacências. Diria mesmo que é uma das poucas fontes que se tem disso no Brasil, junto a escasso material: de cabeça, lembro apenas do Enterrem meu coração na curva do rio (de Dee Brown), da questionabilíssima biografia de Billy the Kid alegadamente escrita por seu matador (Pat Garrett) e as incríveis Blizzard Gazettes escritas por Gianfranco Manfredi para Mágico Vento (série publicada na íntegra pela editora Mythos, ao longo de um período de cerca de dez anos). Há também que se procurar nas obras de autores como Mark Twain e Jack London a descrição do que era estar e viver naquele tempo e espaço.

Mas além de todo o (sim) preciosismo histórico — é preciso reforçar que boa parte dos álbuns possuem fotos, documentos e textos contextualizando as coisas reais encontradas na aventura lida —, Lucky Luke tem um grande pilar de sustentação: Lucky Luke! Esse caubói magrelo e beiçudo, de roupa simples (jeans, camiseta amarela, chapéu branco, jaqueta preta, lenço vermelho ao pescoço) e que sempre termina cada trama seguindo adiante, montado em seu cavalo branco (e louro) Jolly Jumper (o equino mais sarcástico de que se tem notícia nos quadrinhos), cantando sua sina: I'm a poor lonesome cowboy / And a long way from home...

Lucky Luke atira mais rápido que a própria sombra. Em anos recentes, usa as duas mãos para, com dois revólveres, atirar duas vezes mais rápido que a própria sombra! É decidido, sensato, hábil, inteligente, alguém em que se confiar e a quem temer. Mas ele prefere usar sua incrível agilidade com armas para desarmar quem está nervoso ou atirar em moscas que o incomodam: tenta evitar a violência a todo custo, quase sempre com ótimos resultados. Sossegadamente, puxa o saquinho de tabaco e prepara mais um cigarro para tragar em paz. Mas Morris acabou se rendendo ao antitabagismo e trocou o indefectível cigarro por uma inócua "palhinha" para mastigação e enfeite. Hoje, até mesmo os álbuns antigos — sobretudo os roteirizados pelo magnífico Goscinny, que conseguia fazer ao mesmo tempo trabalhos tão díspares e perfeitos como Lucky Luke, Astérix e Iznogoud, sem baixar a qualidade ou desnaturar qualquer uma das séries —, até mesmo os álbuns antigos sofreram a reformulação tão criticada por porções do público, com Lucky Luke ocupando sua escancarada boca com a risível palhinha.

É preciso reiterar que são histórias engraçadíssimas, povoadas de um humor tão sagaz e incrível quanto preciso e peculiar. E segue firme e aclamada, mais de dez anos após a morte de Morris (e quase quarenta da de Goscinny!). E por mais que videogames, filmes (como esquecer da clássica adaptação de Terence Hill em 1991?), adaptações televisivas e todo tipo de produto apareçam a todo instante, é nos quadrinhos que Lucky Luke reina e permanece sozinho como uma das melhores e mais representativas criações francobelgas de seu estilo, continuando sempre a voltar solitário para seu distante lar mas com milhões de amigos-leitores que o amam e que nunca quererão se separar dele.

A seguir: Daisy Town, longa dirigido em 1971 por ninguém menos que o próprio Goscinny (no francês original), os créditos de abertura do filme de Terence Hill (reparar na esdrúxula indumentária de Lucky Luke), a abertura de sua série televisiva, uma entrevista feita com Morris em 1993 e um documentário sobre René Goscinny.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Luluzinha e Bolinha

Assim como a Turma da Mônica, Menino Maluquinho, Disney e outros personagens de quadrinhos, Luluzinha e Bolinha não só estão há décadas em circulação (e portanto são conhecidíssimos) como também passaram por muitas mídias e repaginações: desenhos animados, versões em mangá etc. Mas, assim como virtualmente todo personagem de quadrinho que vai para outros rumos, sua melhor versão continua sendo a original — ou melhor, a "evolução" de sua versão original: Luluzinha foi criada em 1935, pela americana Marjorie "Marge" Henderson Buell (essa moça segurando na foto uma simpática boneca de sua famosa criação) para ser uma espécie de sucessora de Pinduca (Henry, no original), o garotinho mudo que causou sensação nos quadrinhos dos anos 1930. Lulu, então, começou muda, de traço mais diferente e "rechonchudo", sem os amigos a que nos acostumamos. Aos poucos foi adquirindo sua identidade e suas principais marcas, principalmente no período em que seu artista-chefe foi o mítico John Stanley.

No Brasil, os amigos Lulu Palhares e Bolinha (Tubby, em inglês) França — cujos sobrenomes originais são respectivamente Moppets e Tompkins — sempre gozaram de grande popularidade. Houve até produção nacional de suas histórias, pois a carência por material novo era tanta que foi preciso arregimentar também esforços brasileiros para suprir os anseios dos leitores. E a influência dos quadrinhos era nítida: em músicas (como a exposta mais abaixo), em vendagens das revistas, e até em expressões que viraram patrimônio nosso, como a clássica definição de um complô masculino, Clube do Bolinha (que ficou famoso nos gibis pela inscrição "menina não entra").

As histórias de Lulu e Bolinha não possuem uma arte tão refinada (apesar de os desenhos serem bastante graciosos) e nem tramas rebuscadas, mas isso nunca importou: é tudo tão bem amarrado e divertido que é difícil não se deixar levar pelas brincadeiras, trapaças, esquemas, planos, confusões, mal entendidos e todo tipo de aventura cotidiana da turminha de crianças bagunceiras e os adultos neuróticos que as cercam. Conhecidos arcos narrativos são repetidos com frequência e com isso desenvolve-se um delicioso storytelling: histórias de bruxas (Alceia e Memeia) contadas por Luluzinha ao indisciplinado e reclamão Alvinho; Bolinha e seu primo menor Carlinhos; seu Miguel, o obsessivo e quase psicótico caça-gazeteiros; a turma da rua de baixo importunando os meninos do clube do Bolinha (Bola, Juca, Careca e Zeca); o detetive Aranha (Bolinha) versus o pai da Luluzinha (que, incrivelmente, sempre é o real culpado dos problemas); os extraterrestres que são amigos de Bola e só por ele são vistos; tentativas de Lulu e sua melhor amiga Aninha de entrarem no clube dos meninos; e muitas outras situações habituais ou especiais.

Após algumas décadas sumidos daqui (a não ser em republicações específicas e semiluxuosas de álbuns históricos), Luluzinha e Bolinha deram as caras novamente nas bancas há cerca de dois anos, pela editora Pixel. E estão fazendo grande sucesso, com direito a lançamento de especiais (dedicados ao amor do Bola, Glorinha, ao Aranha, às histórias da pobre menininha contra as bruxas...) e duas revistas mensais, que ainda abriram caminho para a republicação de mais títulos clássicos sumidos há eras das bancas do Brasil: os personagens da Harvey (Riquinho, Gasparzinho, Brasinha, Bolota, Brotoeja e afins), muito inferiores a Lulu e Bolinha mas com considerável demanda dos leitores saudosistas.

Mas Lulu e Bolinha não devem ser vistos nesse balaio; são quadrinhos realmente preciosos, muito engraçados ainda hoje, bem bolados, empolgantes. E ainda que haja desenhos animados bacanas (como os expostos abaixo) ou novidades como a em minha opinião pavorosa modernização estilo mangá "Lulu Teen" (que modifica todos os personagens e desvirtua todo o espírito da coisa, além de ser uma produção evidentemente medíocre e oportunista), os quadrinhos da menininha de cabelo encaracolado e boina e o menininho gordo com roupa de marinheiro permanecem a melhor pedida. E é emocionante perceber que, tempos e costumes mudando sempre, essa turminha continuará como sempre e isso não fará dela anacrônica, ultrapassada ou incompreensível, pelo contrário: crianças são sempre crianças.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Macanudo

Todos os amantes das tiras de quadrinhos sabem que nas últimas décadas essa forma de arte sofreu reajustes tremendos. Adaptou-se aos novos tempos e às novas mídias. Como esperar, por exemplo, encontrar nas tiras grandes sagas continuadas, como em Flash Gordon, em Dick Tracy e no Mickey Mouse de Floyd Gottfredson? Isso não existe mais. As histórias longas saem em revistas e livros. As tiras atualmente apresentam quando muito minúsculos arcos narrativos, quase imperceptíveis; são, em sua maioria, pequenos relatos humorísticos (outros gêneros são totalmente marginalizados nas tiras contemporâneas), com piadas fechadas, compreensão imediata e isolada dia a dia. A continuidade foi virtualmente extinta.

Também existem as tiras publicadas diretamente na internet. O humor de menes/memes, as repetições de chavões e frases, o minimalismo técnico, o traço rudimentar/esculachado. O simples humor da frase, do chiste, da ironia, da referência. Tudo isso parece a degradação das tiras, em que a mídia dos quadrinhos surge apenas como uma muleta, nunca um suporte para expressão de ideias, desenvolvimento de algum pensamento. Essas tiras virtuais, em sua maior parte, resumem-se a irrelevantes amontoados de tendências que em dias envelhecerão. Não querendo parecer saudosista, já que saudosismo é um mal subterrâneo terrível, a meu ver essas tiras padecem de qualquer identidade ou importância.
Então por isso é capital reconhecermos alguém como Liniers, que em seu Macanudo vai de encontro a todos esses problemas que tornaram a tira (sobretudo de jornal) uma arte esmaecida, inútil e desnecessária; Macanudo não se ressente das dificuldades dessa arte e faz dos empecilhos escada para alcançar algo novo e criativo e fascinante. Liniers, nosso vizinho argentino, aproveita todas as possibilidades das tiras e cria com isso um mundo inédito que só faz sentido nessa forma de quadrinhos — o que por si só já é algo digno de atenção, pois não é a arte mais impressionante aquela cuja forma é inseparavelmente parte de seu próprio conteúdo? Macanudo é uma bela tira também porque é pensada como tira.

Liniers é um aficcionado por tiras e quadrinhos que resolveu não cometer o "erro" de seus mentores Bill Watterson e Quino: bolar um personagem principal. Que depois de um tempo o artista, até então enamorado e embriagado de amor por sua criação, cansa-se; quer sair por outros caminhos, trabalhar outros rumos, quer dar uma de Angeli e matar Rê Bardosa, quando ela passa a lhe sufocar. Liniers resolveu isto de maneira simples: sua tira não tem um personagem principal. Ou talvez tenha vários. Quem é o protagonista de Macanudo? É tanto Enriqueta, a jovem menina amante da leitura, quanto Fellini, seu filosófico gato; é tanto Olivério, a azeitona aterrorizada, quanto o homem que traduz os títulos de filmes; é tanto o misterioso homem de preto quanto uma infinidade de pinguins e outros animais, crianças, adultos, seres de fantasia ou de realidade. Cada um tem seu espaço, seu momento, seu brilho e sua voz.

O esquema é quase sempre o mesmo rígido esquema das tiras que são produzidas hoje: piadas. Mas o humor de Liniers não se resume à comédia fácil, à reprodução sarcástica do noticiário, os paradoxos comportamentais. Macanudo é capaz de num dia ilustrar o melancólico bucolismo da infância e no dia seguinte apresentar seu autor mudado em coelho (uma de suas marcas) falando sobre seu cotidiano de cartunista, para no dia seguinte zombar dos clichês do cinema, ou brincar com um passado hipotético de Picasso. Em comum a todas as tiras: o delicado traço, as cores sugestivas, a empolgação com o formato das tiras, com a graça das personagens, com a beleza da vida, com tudo que pode fazer bem, animar, alegrar, consolar, inspirar. Utilizando-se de todas as armas possíveis de convencimento e encanto, Liniers é como um diretor de cinema que cria todo um mundo dentro de um enquadramento mais ou menos fixo, não nos deixando nunca duvidar de sua mágica.

E como Macanudo não sai mais nos jornais brasileiros, a opção para ver as novas tiras, diariamente, é acessar seu perfil no Facebook ou este site. E deliciar-se a cada dia com as invencionices de alguém que ama as tiras e faz desse veículo um meio de comunicação realmente memorável

Bônus: um belo documentário sobre Macanudo, Liniers e a arte do argentino e seus quadrinhos, dirigido por Franca Gonzáles.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Zé Carioca 70 anos

Já disse anteriormente que sou leitor de quadrinhos Disney desde a infância. Naquela época eu era um fã bem mais ávido por Zé Carioca do que nos anos seguintes, quando deixei o papagaio um pouco de lado. A razão é simples: eu já tinha a maior parte das histórias, pois nos últimos dez anos não houve nenhuma história inédita da ave malandra, salvo uma outra homenagem específica.

Então virei-me de vez para os patos e para os ratos. Além de um material extremamente mais abundante — afinal, as histórias do Zé são quase todas brasileiras, enquanto que os outros personagens são produzidos por vários países —, Donald, Patinhas, Mickey, Pateta e companhia nunca correram o risco de esgotarem suas tramas novas e engessarem suas revistas com repetições infindáveis e desesperadoras (como ocorreu com o Zé na triste última década).

A razão para o Zé sofrer nessa negligente situação é um amálgama de várias infelicidades simultâneas, que fizeram os quadrinhos Disney brasileiros passarem por reformulações iminentes visando a revertar sua estagnação e virtual cancelamento; as revistas acabaram sendo preservadas, com um acréscimo expressivo nas vendas dos últimos anos, mas encerrou-se de vez a produção artística de histórias feitas aqui. Até que ultimamente surgiu uma esperança.

Mas neste decênio Zé Carioca passou por maus bocados. O que é mesmo deprimente, considerando todo o (invejável) histórico desse nosso "conterrâneo americano", sua vida cheia de louvores e seu talento em entreter e divertir a todos por décadas a fio.

Afinal, quem é o  Zé Carioca? O papagaio verde foi criado pela equipe de Walt Disney em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, com os planos de aproximação dos ianques desejosos de expandir sua política da boa vizinhança e com isso aumentar seus mercados (a Europa, lembremos, estava bloqueada por Hitler e demais forças anti-EUA). Zé surgiu já em grande estilo, no clássico (animated feature, ou longa animado) Alô, amigos, dançando a "Aquarela do Brasil" com o Pato Donald, ensinando o desajeitado pato a sambar, ciceroneando-o pelo Rio. Zé fez tanto sucesso que apareceu em mais dois (!) clássicos do estúdio, Você já foi à Bahia? (onde forma um inesquecível trio com os caballeros Donald e Panchito) e Tempo de melodia. Para se ter uma ideia do que o Zé representa na história da animação Disney, ele aparece em tantos longas do cânone oficial disneyano quanto... Mickey Mouse! Com um detalhe: Mickey só emplacou seu terceiro clássico em 2000, com o segundo Fantasia, enquanto Zé já na década de sua criação saía na frente com suas três participações.

Como em muitos casos, do cinema para os quadrinhos foi um pulo: e Zé invade as páginas americanas dos jornais, por cerca de dois anos, tendo até mesmo o futuro "mickeyano" Paul Murry desenhando suas tiras — publicadas pela Editora Abril há algumas semanas, pela primeira vez no mundo em sua integralidade e num único volume. Essas primeiras aparições do Zé sequencial são simplesmente hilárias, com golpes e mentiras desenfreados e muito inteligentemente encadeados; só é de se estranhar como Zé Carioca não infartava após todas as vezes em que temeu ser desmascarado, pois foram inúmeras e constantes!

Alguns veem em Zé Carioca um estereótipo pejorativo do brasileiro, por sua folga, sua preguiça, sua vadiagem, sua manha, sua fissura com samba, futebol e feijoada. Mas personagem menos ofensivo não há: criatura simpática, inteligente e "gente boa" está aí. Quanto aos traços negativos que apresenta, ora, nunca se pretendeu afirmar que todos os brasileiros são assim: apenas o Zé é que é! Podemos ver nos dois volumes comemorativos de suas sete décadas, lançados pela Abril em outubro e novembro, uma grande variedade de traços de seu caráter, e quem o acusa por um ou dois deles só demonstra o evidente: não conhece a carreira do Zé em longas décadas de aperfeiçoamento.


A relação do Zé com a Abril é muito importante, pois foi sob o selo (e a infraestrutura) dessa casa que todas as histórias brasileiras do Zé (que são a grossa maioria do que se fez com o papagaio) foram desenvolvidas e lançadas. Então não foi difícil para eles selecionarem alguns momentos-chave na vida do penoso, como o surgimento de seu alter-ego de herói (Morcego Verde, abertamente inspirado no Morcego Vermelho do Peninha, também criação brasileira), suas fugas da Anacozeca (Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca), sua relação com a namorada (Rosinha, periquita milionária filha do tucano Rocha Vaz), com os amigos (sobretudo o urubu Nestor, o pato Afonsinho e o sui generis [provavelmente um cachorro] Pedrão Feijoada), com os sobrinhos (Zico e Zeca, sendo este também um herói alternativo: o Paladino Implacável), os primos (Zé Paulista, Zé Queijinho, Zé Jandaia, Zé Baiano...), suas aventuras com os compañeros Donald e Panchito... Sobre esse trio, os volumes estão mesmo preciosos: há uma trama inédita italiana, uma releitura de Você já foi à Bahia? feita por ninguém menos que Walt Kelly e as duas aventuras (no maior sentido do termo) que Keno Don Rosa fez com os três amigos; sim, até mesmo o mítico Don Rosa, para quem apenas Carl Barks fez quadrinhos Disney dignos de atenção, rendeu-se ao papagaio e prestou seu tributo (ainda que ignorando a "cronologia" brasileira e seguindo o molde do Zé americano dos primórdios). Zé Carioca mostrou-se um brasileiro dos mais universais! Para quem quiser conferir a seleção de histórias, prévias e comentários dos leitores, basta conferir no fórum Calisota os tópicos do primeiro e do segundo volumes.

Como já dito, após uma década obscura, Zé Carioca aos poucos tem reaparecido sob holofotes: os dois especiais estão sendo bem acolhidos na rede e nas bancas; de Ruy Castro a comentadores anônimos, muitos deram os parabéns por seu jubileu de vinho; e, mais importante que tudo, no segundo volume do especial já temos um aperitivo do renascimento de Zé nos quadrinhos brasileiros, com duas histórias completamente inéditas — a produção retoma em poucos meses, segundo anunciado. Eu e o colega Thiago Machuca, do Portallos, aproveitamos a ocasião para uma rápida entrevista (ou antes um bate-papo) com Fernando Ventura, um dos principais responsáveis pela nova sobrevida do personagem e grande pesquisador de artes Disney (colaborando ele mesmo com a colorização, desenho e roteiro de muitas histórias). Fernando sintetizou e atualizou a conversa e mandou-me ainda uma exclusiva página de um roteiro seu para uma história ainda inédita. Esperamos com isso prestar nossas homenagens a esse grande personagem Disney que é Zé Carioca, e também incentivar um pouco o necessário reconhecimento da importância desses incríveis 70 anos — além de torcer para que a nova produção brasileira chegue com força e nunca mais seja interrompida!

ENTREVISTA COM FERNANDO VENTURA

SOBRE O RETORNO DA PRODUÇÃO

Filipe: A retomada da produção brasileira de Zé Carioca coincidiu com os 70 anos do papagaio. A Abril apressou ou atrasou essa produção para lançá-la na data comemorativa? Os artistas envolvidos receberam algum comando específico ou a volta do Zé já estava sendo planejada independentemente de qualquer aniversário?

Fernando: Desde o fim da produção (de quadrinhos Disney no Brasil), em 2000, eu escrevi e/ou desenhei, por iniciativa própria, HQs Disney inéditas, no intervalo de outros trabalhos (foram 10 histórias, ou 98 páginas)! A intenção era, claro, tentar convencer os editores a retomar a produção local e criar histórias com personagens que eu ainda não tinha tido oportunidade de desenhar. Não é fácil produzir uma HQ sem perspectiva de publicação, mas sempre tive esperança que um dia o contexto editorial permitiria o retorno da produção. Este cenário começou a se esboçar favorável novamente a pouco mais de um ano. Surgiu então o projeto de homenagear os 70 anos do Zé Carioca e, ao mesmo tempo, retomar a produção nacional com duas HQs inéditas. Os editores me pediram uma história e indiquei, para a outra HQ, o Arthur Faria Jr. e o Luiz Podavin, excelentes autores também saudosos da produção Disney nacional.

SOBRE AS TIRAS AMERICANAS DA DÉCADA DE 1940

Fernando: Paulo Maffia [o editor dos quadrinhos Disney no Brasil] me ligou e disse "veja se você consegue algum material raro para publicar no especial"! O que poderia ser mais raro do que as páginas dominicais do Zé Carioca? Foi preciso três coleções, localizadas em três países diferentes, para que todas as 104 páginas pudessem ser republicadas. Foram 6 meses de produção, desde a escolha das melhores matrizes até o letreiramento e revisão. Meu papel foi traduzir, colorir e supervisionar a restauração ou arte-final das tiras que não existiam em matrizes preto & branco. Essa etapa foi feita pelo David Gerstein, Shelley Plegger e José Wilson Magalhães. Quanto às cores, fiéis ao original, essa era uma linha que eu já vinha desenvolvendo desde a publicação de "As Obras Completas de Carl Barks". Foi somente durante a tradução que percebi que não apenas as últimas 5 gags eram inéditas nas publicações da Abril, mas que várias outras páginas haviam sido puladas, editadas, ou mesmo censuradas, nas publicações anteriores.

SOBRE HISTÓRIAS NOVAS E EXPORTAÇÃO

Filipe: O "esforço de exportação" comporta fazer histórias menos 'regionais' ou seria tornar a brasilidade do Zé tão divertida e especial que não se veria problemas em mandá-la para outros países assim como a fazemos aqui, sem alternar nada substancialmente?

Thiago: Por que a obsessão por bonés? Nota-se um uso perturbador deles nos anos 90, mas isso não se reflete tanto assim nos dias de hoje. E tanto na HQ da torneira quanto na das plantas [as duas inéditas do segundo volume do especial], ali estão os personagens com bonés. Fala-se em variedade, mas é fogo ver um personagem como o Pedrão de boné em sua nova HQ, e ainda um boné cor de rosa! Deveriam ter um cuidado maior a esses detalhes, até mesmo nas cores. Sacanagem colocar um boné cor de rosa no Pedrão... Existem outros tipos de chapéus, sabe? O chapéu Panamá ficaria perfeito no Zé e é algo tanto nostálgico como moderno nesta geração.

 Fernando: Enquanto eu trabalhava nas tiras, lembrei aos editores sobre as minhas HQs engavetadas. Por que não aproveitá-las? Deste modo pude me concentrar em terminar, com o cuidado necessário, a tradução e colorização dos tablóides. Foram tomados vários cuidados, como  a produção de uma guia nova de roteiros (feita a meu pedido pela Cecília Magalhães, que trabalhou comigo em Gemini 8), novas técnicas de escaneamento e colorização em formato americano. Deste modo as HQs podem ser republicadas em formato maior e exportadas. Quanto ao "boné cor-de-rosa" do Pedrão, na HQ das "plantas", era pra fazer contraste com as outras cores! E não é rosa, é magenta! Ah, ah, ah!
[Nota: Confira a cor do boné aqui.]

SOBRE O VISUAL DA TURMA

Filipe: Esta semana [esta entrevista tem alguns meses] terminei a leitura dos dois romances que inspiraram o filme "O caldeirão mágico", escritos por Lloyd Alexander, e assisti ao longa novamente, só o havia visto na infância. Esse filme teve um problema incrível desde a concepção até o lançamento, que foi basicamente o seguinte: o material foi considerado muito "dark" (impróprio para crianças) e o Katzenberger, então chefe da Disney, mandou cortar muitos minutos dele após reações negativas de uma plateia teste... A mutilação resultou num filme esquisito, incoerente e problemático, que deu um enorme prejuízo ao estúdio. O que eu queria com todo esse rodeio é perguntar algo simples: isso pode acontecer com os quadrinhos? De repente algum personagem, estilo, autor ou tendência é testado e violentamente rejeitado, a Abril ou mesmo a Disney pode interferir no aspecto artístico, de criação dessas obras? Nós lembramos do que houve com o Canini [artista brasileiro demitido pela Disney americana ao fazer um Zé Carioca "favelado" e com um traço diferente e autoral], mas e como funciona hoje? A Disney parece totalmente desinteressada pelos quadrinhos, ainda mais brasileiros; essa impressão é falsa ou aqui se tem liberdade de ação com os personagens disneyanos? Vocês devem seguir alguma "cartilha" vinda da matriz americana, com características imutáveis das condições físicas, psicológicas etc. das personagens?

Thiago: A cartilha da Disney diz quantos anos o Zé, Nestor, Pedrão e companhia devem ter? Personagens como o Donald ou Mickey passam a ideia de que já são adultos, mas às vezes, com esse Zé Carioca molecão, de boné e tênis, a impressão que tenho é a de que o personagem seria bem mais jovem. Esse visual dos anos 90, chamado de "Sérgio Malandro" por alguns, é um dos que mais se torcia para não retornarem, e foi ele que voltou. E agora? Vai ficar assim mesmo ou o Zé vai mudar para algo novo após as primeiras historias inéditas?

Fernando: Como já foi divulgado, foi dado aos artistas a liberdade para trabalhar com o visual dos personagens que preferir e que for melhor conveniente ao roteiro. Eu considero essa decisão muito acertada, pois permite aos roteiristas e desenhistas lidar com a questão de forma criativa. Em tempo, é preciso desmistificar a impressão de alguns leitores de que o Zé de boné e tênis "não deu certo". Como diria o Hércules, "tinha até bonequinho!"!. A iniciativa da Redibra, então representante Disney no Brasil, não foi imposta para a editora. Pelo contrário: foi aceita de bom grado pelos editores da época porque eles sabiam que isso renovaria o personagem, tanto que a presença do Zé Carioca, em licenciamento, exportação e mídias diversas, foi muito mais significativa nesse período do que na década passada. Outro ponto confuso é que as histórias do ano 2000 representam "o fim do estúdio nacional". Na realidade o estúdio já havia sido desmantelado em 1997. Foi justamente o lançamento dos gibis de R$ 1,00, em 1999, que permitiram à Abril voltar a produzir, ainda que por pouco tempo, novas HQs do Zé, Patos e Mickey, agora com artistas freelancers e estúdios terceirizados.

SOBRE O FUTURO

Thiago: A produção do Zé vai voltar apenas com HQs curtas? Alguma chance de vermos histórias maiores com o personagem? Especiais e paródias como era tão comum nos anos 90 (o gibi dos Trapalhões era craque nisso)?

Filipe: Só o Zé dará as caras na retomada da produção nacional? Como se darão as etapas desse ressurgimento? Como ficará a mensal do Zé e haverá a entrada de novos artistas nesta fase eufórica de renascimento?

Fernando: Eu acredito que com o aumento de vendas tudo pode acontecer, como mais histórias inéditas brasileiras de outros personagens e mini-séries. Eu adoraria bolar novas HQs da Turma da Pata Lee, por exemplo. Com continuidade tudo pode acontecer!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mister No

 Mister No é uma série criada por Sergio "Guido Nolitta" Bonelli em 1975 e encerrada em finais dos anos 2000 (pouco antes de seu autor, o legendário editor/roteirista, morrer, em 2011).

As particularidades da série são muitas, e seu principal atrativo é o anti-herói que lhe dá nome: Mister No, aliás Jerry Drake, piloto americano que lutou na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coreia. Mas Mister No não é uma aventura de guerra, ou não exatamente. O próprio pseudônimo do protagonista já dá o tom do inconformismo: o "no" é devido a sua negação, sua recusa em querer tirar as vidas dos outros, em combater em nomes de ideais espúrios, em entrar em batalhas inúteis e sangrentas. Fugindo da violência, Jerry Drake resolve se estabelecer numa terra quente e afetuosa: o Brasil!

Sim, o Brasil amazônico, que Sergio Bonelli tanto amava e conhecia, é o cenário da maior parte das aventuras do piloto de cabelos desgrenhados e que começam, pela base, a ficar grisalhos. O curioso (e triste) é que aqui no Brasil, onde as editoras Record e Mythos publicaram algumas poucas dezenas de aventuras suas, ele nunca foi muito popular. Suas histórias na Amazônia, no Pantanal e em outros lugares de nossa geografia próxima não chegaram a emocionar um contingente de leitores necessário para que suas aventuras prosseguissem em nossas bancas.

Fato lamentabilíssimo, e bastante incompreensível — Mister No possui todos os ingredientes para agradar a muita gente: tensão, aventura, romance, muito humor e um personagem incrivelmente simpático: Mister No é alguém que foge da brutalidade e dos horrores que experimentou ao tirar a vida de pessoas, mas sempre é tragado para conflitos que o fazem relembrar e revisitar essas torturas. Mas ao contrário do que possa parecer, a série idealizada e roteirizada (por muitos anos) por Guido Nolitta não é essencialmente ácida ou denunciatória, mas humana. São reflexões sobre nossa humanidade, nosso espírito de solidariedade, o apelo que a ecologia, a alegria e a fraternidade possuem sobre nós.

Ao longo dos anos, Mister No apresentou uma invejável variedade de estilos de desenho e desenvolvimento narrativo, por gente como Claudio Nizzi, Fabio Civitelli, Franco Bignotti, Gallieno Ferri (o genial capista e desenhista-mor de Zagor, que foi o criador gráfico deste nosso belo piloto), Alfredo Castelli, Tiziano Sclavi e até mesmo o mítico brasileiro Eugênio Colonnese (único brasileiro que já trabalhou para a Bonelli); mas de todos esses grandes artistas, os dois maiores artífices da personalidade e do acabamento da série foram mesmo seu criador, o magnífico Nolitta, e um desenhista que aos poucos foi tomando conta do personagem até defini-lo a sua imagem e com uma força expressiva assombrosa: Roberto Diso. Foi Diso quem mudou a imagem que Ferri havia criado para Mister No, atualizando seus trajes (ele usava uma jaqueta e um lenço amarelo no pescoço), bagunçando seu até então arrumadinho cabelo e dotando-o dessa malícia engraçada que o faz ser marcante em cenas como as das frequentes bebedeiras (por desilusão ou por hábito) e aquelas em que se envolve, mulherengo, com belíssimas moças — entre as quais se destaca sua frequente amiga e paixão disfarçada Patricia Rowland, arqueóloga voluntariosa e decidida. No maior fórum bonelliano brasileiro, é possível ver algumas belas ilustrações de Diso e outros artistas.

Mister No é um sujeito expansivo, que vive afastado da "civilização" na Manaus de décadas atrás — que ainda começava a se desenvolver no que chamamos de "progresso" — e só quer ser deixado em paz e viver de pequenos expedientes e voos turísticos, levando passageiros em seu velho e (pouco) confiável piper. Seu grande amigo é, podemos dizer, o ex-combatente alemão Esse-Esse, ou melhor, Otto Krueger, simpático chucrute que também se cansou de ceifar vidas em nome de ideais políticos questionáveis. Há nas páginas de Mister No pensamentos tristes sobre o futuro das nações e do desenvolvimentismo bélico, mas também há espaço para a beleza natural, com paisagens e animais que hoje nos parecem distantes porque em vias de extinção, e também encontramos nas histórias muitas razões para acreditar nas pessoas que querem fazer a diferença e dar sua contribuição a um mundo mais sereno e mais amigo.

Por tudo isso e por muito mais, Mister No é um quadrinho que marcou a minha vida e me acompanha sempre, e que desejo muito que possa voltar algum dia a ser publicado na "terra adotiva" de Jerry Drake/Sergio Bonelli, conseguindo enfim todo o sucesso que merece e que nunca lhe deveria ser negado.

Oh, when the saints go marchin' in...

Bônus: Roberto Diso desenhando, a meu pedido, Mister No e Patricia. Pude encontrar o grande artista na última edição do Fest Comix de São Paulo, há dois dias.

 


Atualização (23/10/12): No Blog do Zagor comento sobre meu encontro com outra personalidade bonelliana que apareceu no Fest Comix - Moreno Burattini. 

Atualização 2 (24/10/12): No Blog do Tex, meu terceiro e último (re)encontro bonelliano do Fest Comix - Fabio Civitelli.

sábado, 20 de outubro de 2012

Boule e Bill

Boule e Bill é mais uma série franco-belga de sucesso que demorou para chegar aqui.

Na verdade, eles já haviam aparecido há vários anos no Brasil. Mas não se firmaram, e voltaram ao obscurantismo.

Há poucos meses, a situação mandou. A jovem e empolgada editora Nemo, que está lançando ou relançando em edições excelentes obras ausentes há anos de nossas livrarias (como trabalhos de Moebius e de Bilal), resolveu apostar nesse simpático título infantil. O primeiro volume, que na verdade foi o último lançado lá fora, chamou-se aqui Ao ataque!. Trata-se de um álbum bonito, no formato tradicional europeu (o mesmo de Asterix), mesmo número de páginas, mas com um preço acessível, bem abaixo do que se costuma cobrar por esses produtos. O álbum foi lançado com boa publicidade, aparecendo bastante na imprensa, e teve destaque no estande da editora na Bienal do Livro realizada em São Paulo este ano; inclusive era oferecido às pessoas um pôster de divulgação, com duas páginas de "amostra" e uma linda ilustração de Boule (o menino) e Bill (seu cachorro).

Agora em São Paulo está havendo a famosa feira de quadrinhos Fest Comix, e a Nemo não perdeu a oportunidade: lançou mais um álbum, Semente de Cocker. Com o mesmo capricho, o mesmo acabamento, o mesmo preço em conta. O papel é bom, a impressão é ótima, é um produto irretocável. Parece cedo para afirmar que o segundo álbum foi lançado na onda do sucesso do primeiro: pelo intervalo curto de tempo entre eles, talvez seja mais acertado apostar que os dois álbuns são testes de mercado. O esforço da Nemo é louvável e merece ser reconhecido.

Boule e Bill é um dos inúmeros quadrinhos cartunescos que a França e a Bélgica apresentam em profusão mas que aqui no Brasil são ridiculamente ignorados. Se Asterix e Tintin continuam sendo dois dos quadrinhos estrangeiros mais vendidos e populares por aqui, por que não apostar em outras séries na mesma linha? Assim como Boule e Bill, inúmeros outros personagens fazem sucesso lá fora e só agora andam aparecendo por aqui, lançado por editoras pequenas e/ou independentes, como a Nemo, que está começando, e a Vergara & Riba, que lançou intrepidamente os dois primeiros volumes de Titeuf — simplesmente o personagem mais vendido na França, e que aqui é/era totalmente desconhecido e ignorado. Essa lógica de só lançar material "indie" americano, praticada por editoras como a Companhia das Letras, é incompreensível. Evidentemente Daniel Clowes e amigos merecem seu espaço aqui, mas por que essa resistência absurda a títulos franco-belgas?

Boule e Bill é encantador. O que mais me chama a atenção são os desenhos, simplesmente lindíssimos. O contorno, as sombras, as proporções, os movimentos, os gestos e as cores, tudo de embasbacar. A série foi criada em 1959 por Jean Roba (falecido em 2006), e atualmente é continuada por seu assistente Laurent Verront. Cada página do álbum possui uma gag, e em cada uma delas conhecemos um pouco dos dois protagonistas, dos pais de Boule, da tartaruga Caroline (apaixonada por Bill) e de outros vultos divertidos e simpáticos. É uma série engraçada e alegre, ideal para crianças mas não só. Fica a torcida para que a Nemo consiga seguir adiante com esses lançamentos incríveis, e que o mercado/leitor brasileiro se abra para sair da mesmice a que está acostumado.

P.S.: A popularidade de Boule e Bill é tão incontestável que está sendo feito um filme live action inspirado nos quadrinhos, segundo consta. A estrear ano que vem.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Andrício de Souza

O único lugar em que estudei a educação "oficial" (portanto, sem contar os cursos de língua e afins) por que sinto afeto é a escola onde fiquei desde o pré até o fim da oitava (hoje nona) série. Nesse colégio gostava de tudo, vivia tranquilo e satisfeito, lia muito, meu rendimento era bom e eu tinha vários bons amigos.

Claro que perdi esses amigos de vista, ou pelo menos a maior parte. Mas aí de repente acontecem com a gente essas coincidências de trajeto, e esbarrei numa rede social com um velho amigo: o André. Era um bom camarada, com que conversava bastante andando pelos pátios do colégio que hoje estão sendo destruídos/reformulados. Portanto, um amigo de lembrança. De coisas que não existem mais.

Mas o que acontece é que o André também não existe mais! Ele se sublimou atrás de um heterônimo: o Andrício. Andrício é esse cara que parece que a gente já conhece mas na verdade é alguém que a gente nunca viu. Como ele diz, faz tirinhas caseiras, quentinhas; digamos que é quase uma obra de artesanato, e claro que na era do império dos memes/menes — e humor "de Paint" no geral, com figuras repetidas à exaustão — isso é a se reparar. Seus personagens são desenhados sob perspectivas bem interessantes: os movimentos dos corpos, o posicionamento dos ângulos de inclinação, ele se expressa de uma maneira única e eficaz.

Também é a se reparar como o humor do Andrício é peculiar. Ele foge de alguns esquematismos que fazem a delícia dos acomodados tiristas contemporâneos: não explora os fáceis "vícios" políticos, não se rende ao direitismo barroco que faz da classe média uma caricatura grotesca, não zomba de quem já é segregado ou perseguido socialmente. Pelo contrário, ele ri desses clichês, desmonta o aspecto diabólico das celebridades pernósticas (como Luciano Huck) e ainda coloca o Paulo César Pereio como seu muso e alter ego ocasional.

Pereio, por sinal, compareceu ao lançamento de seu melhor e único livro, "As 100 primeiras e melhores tirinhas de Andrício de Souza". Eu também estava lá, com toda a ausência de traquejo que me caracteriza (eu acredito que cheguei constrangedoramente a chamá-lo de "Fabrício" em algum momento). Reencontrar um amigo por quem temos estima já é ótimo, mas vê-lo aos poucos crescendo e triunfando numa área que você adora (quadrinhos/tiras) é uma sensação bem curiosa e que afinal serve um pouco de incentivo: as coisas estão acontecendo, você também tem alguma chance de dar certo.

O site do Andrício é este (a apresentação, aliás, foi feita por mim, a convite dele). Vale a pena espiar e conferir um dos tiristas mais originais surgidos pelos últimos anos internet afora. Que não é surpresa para quem frequenta os Facebooks da vida: todo mundo já compartilhou uma tira do rapaz, porque é mesmo muito fácil sentir-se representado em algum momento por ele.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Peanuts

Peanuts completa hoje sessenta e dois anos, oficialmente. Isso significa que a primeira tira com Charlie Brown e seus amigos saiu em 2 de outubro de 1950.

É difícil eu precisar o quanto Peanuts me influenciou, o quanto me assombra ou simplesmente o quanto gosto dessa tira. Por ser a tira mais longeva que acompanho com interesse e fidelidade, seus personagens e situações todos acabam fazendo parte do meu cotidiano e da minha cabeça. Para comparar: Calvin & Hobbes, a tira mais importante da minha vida, durou cerca de dez anos. Peanuts alcançou as cinco décadas! Schulz, seu autor, quase literalmente morreu fazendo-a; a última página dominical, sua despedida, foi publicada após a sua morte.

Peanuts tem um traço simples, quase não possui cenários de fundo, as personagens são anatomicamente incorretas e cabeçudas, com mãozinhas e pernas/pés muito estilizados etc. So what? Peanuts tem uma expressividade colossal, dificilmente igualada. As crianças (pois é uma tira em que apenas elas aparecem, com uma pequena exceção no começo da "saga") são muito reais, movimentam-se com naturalidade impressionante, nunca parecem falsas, ridículas, unidimensionais. Não apenas fisicamente: os caracteres que Schulz desenvolve são tremendamente complexos e verdadeiros, honestos, tocantes. Há todas as fobias, medos e alegrias da infância e da vida, a cada quadro parecemos conhecer um pouco mais não apenas daquela turma mas das nossas vidas. Não é um clichê ou um elogio superlativo; quem ler Peanuts entenderá perfeitamente.

Além de tudo, um dos grandes méritos de Peanuts é para mim a admirabilíssima habilidade de reinvenção que Schulz possuía. Muitos arcos narrativos são recorrentes ao longo das décadas da tira — exemplos: Linus e "The Great Pumpkin", o Ás da Aviação da I Guerra Mundial versus o Barão Vermelho, o aniversário de Ludwig van Beethoven, a avó de Linus versus seu cobertor e, claro, Lucy tirando a bola na hora de Charlie Brown chutá-la —, mas isso nunca parece repetitivo ou desnecessário; Schulz explora um tipo de "padrão" que dificilmente se vê em quadrinhos, para mim algo essencialmente musical: variações! Ele pega um tema, um assunto, uma distinção da personagem, e trabalha a ideia à exaustão, com todas as suas possibilidades. E como ele é feliz nisso!

Também é completamente louvável o empenho, a dedicação à tira, à arte, àqueles personagens. Ora, Schulz alcançou o sucesso e a fama muito cedo. Ao contrário do aparentemente misantropo Bill Watterson, ele nunca pensou em realmente encerrar a série de quadrinhos. E diferentemente de mil outros quadrinistas, ele não relegou sua obra a aprendizes incapazes ou explorou-a de tal maneira que já não podia mais ser livre ou sincero no que produzia. Não, Charles Schulz resistiu a todas essas tendências e fez, dia após dia, incansável, centrado, cada uma das 17.897 tiras de Peanuts. Era uma simbiose, um projeto de vida. Derramando-se em cada quadro, evoluindo junto com seus leitores (e além), na imaginação peculiar de Snoopy, no feminismo egoísta de Lucy, na alegria marginal de Peppermint Patty, na estrondosa percepção humana de todas as suas criaturas, enfim, Schulz foi um grande homem que legou à cultura um monumento que não pode jamais ser contestado: a vida, nada mais e nada menos que a vida.

(Um singelo agradecimento pelos sessenta e dois magníficos anos de Peanuts).

Bônus: há muitos vídeos sobre Schulz e Peanuts disponíveis na internet. Aqui vão alguns, apenas como mostruário: vale a pena ver o máximo que der.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Bórgia

Li e reli muitas vezes, há alguns anos, os dois primeiros volumes da série Bórgia, escrita por Alejandro Jodorowsky e ilustrada por Milo Manara. Aliás, cheguei até a escrever brevemente sobre eles, num texto hoje desatualizado: aparentemente, segundo puxo da memória e leio em alguns sites, a ideia da saga era concebida como uma trilogia. Ocorre que Jodorowsky e Manara acharam por bem se expressar em mais um tomo, e acabei me afastando da série enquanto aguardava o demoradíssimo terceiro volume. Demoradíssimo porque eu era impaciente e acreditava que dois anos eram uma eternidade...

De todo modo, comprei há algum tempo (seis meses? Um ano?) o terceiro volume, e, aguardando o quarto e último, resolvi não prosseguir na leitura até completar de vez a série. A ocasião se fez semana passada, quando finalmente adquiri o desfecho da história, feito ano passado, e separei algumas horas (intercaladas) num dia para lê-la de cabo a rabo, continuamente, como um livro. Foi uma leitura árdua, pesada, angustiante. Era difícil esquecer tudo que acontecia numa página e virar para a seguinte como se ainda houvesse alguma esperança.
A leitura simplesmente me extasiou! "Bórgia" era ainda mais impressionante do que eu recordava. É difícil achar um momento de calmaria no meio de tantas perversões e monstruosidades e sujeiras e crimes, e não foi apenas uma vez que senti uma tontura, uma vertigem quase física, um nojo e indignação insuportáveis. Jodorowsky não fugiu ao mais grotesco e sórdido para denunciar os horrores da ignorância, do poder corrupto, da ditadura moral e religiosa de uma era que infelizmente não parece alegórica ou extinta.

Manara tem aqui um de seus grandes momentos como artista, se não o melhor. Se em trabalhos como "O clic" e suas continuações seus roteiros de próprio punho demonstravam uma fragilidade narrativa algo constrangedora (com poucas exceções), é trabalhando com textos de outros autores que Manara demonstra também seu gênio, colaborando para fazer de obras tão díspares como "El Gaucho" (escrita por Hugo Pratt) e "Viagem a Tulum" (roteiro de Fellini) trabalhos fascinantes e imprescindíveis. Em "Bórgia" ele revela seu talento com a arquitetura, com o sombrio, com a fábula de morte e cinismo, passando muito além do rótulo de "desenhista de mulher pelada". Reconfortante um artista consagrado procurando ainda novos caminhos de expressão, e quem conhece Manara por suas obras essencialmente eróticas terá uma (grata) surpresa com sua parceria com Jodorowsky.

Era difícil mexer com uma saga de tamanho peso histórico "anterior" a qualquer romantização e releitura, e Jodorowsky e Manara conseguiram lidar à perfeição com os Bórgias, os papas e cardeais, Savonarola, Maquiavel, Leonardo da Vinci e todo o contexto de depravação, pestes, desespero, ausência de comprometimento com qualquer coisa positiva, perseguição a credos, descaso com a miséria, extermínio da cultura questionadora... No final fica a desoladora certeza de que é mesmo impossível enxergar uma distância entre a Roma da baixa Idade Média e o mundo de hoje: o terror só muda sua roupa, a maldade humana é perene.