quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sargento Getúlio

Às vezes nos esquecemos que o Brasil é antes um continente que um país, e que em toda a sua extensão temos mil sotaques, aparências, culturas. Há grandes distâncias, grandes abismos. Um livro como Sargento Getúlio faz pensar também em outras distâncias além das geográficas, e ao mesmo tempo sua regionalíssima história nordestina é tremendamente universal: converge-se no romance de João Ubaldo Ribeiro o universalismo com o exclusivo de uma terra e época. Pouco mais de quarenta anos após sua publicação original, esse multidimensionalismo ainda é extremamente novo, original e ousado, por vezes chocante.

Pois em Sargento Getúlio a premissa simples (espécie de jagunço a serviço do coronelismo transporta um prisioneiro de um ponto a outro em Sergipe) como que se abre num despetalar de vozes e consciências que é mais impressionante porque quase unificado na figura-título, narradora da história. Diferente de todos os narradores em primeira pessoa, Getúlio solta seu fluxo de pensamento sem rigidez de estilo, parecendo por vezes uma carta de confissão, um delírio, uma confidência, um desabafo, um manifesto, uma ameaça (poderia continuar indefinidamente). Por meio de uma prosa atabalhoada, define-se o caráter, o histórico e os ideais (e as ações e compromissos) do sargento, de seus colegas e seus conhecidos — inclusive o do "coisa", o "traste", o transportado, a quem Getúlio despreza e chega a lhe deformar o rosto, numa cena de violência impactante (superada por outras). E a política, os desmandos, o jogo dos graúdos (e do "chefe" de Getúlio), o papel da imprensa? Tudo lá.

A violência é, aliás, uma das tônicas do relato. Um falar sujo, forte e definitivo, ainda que atropelado, desordenado e amórfico. Os adjetivos abundam, mas não é um romance de adjetivação. É uma experiência essencialmente sensorial, narrativa oral que em verdade não se parece com a transposição de diálogos mas como um encadeamento estilístico de ideias que só encontram sentido quando se apresentam literariamente. Mas é bom de imaginar os sons que surgem das linhas, e bom ler em voz alta o máximo que se puder extrair dos oito capítulos do pequeno romance — o fluxo ininterrupto dos monólogos contraditórios de Getúlio, começando por um primeiro parágrafo de quase duas dezenas de páginas!

É difícil falar de uma obra como essa sem parecer omisso ou necessariamente desnecessário. Pois seu vigor não está em nada posterior a ela, como análises e críticas, mas em suas páginas e na construção brilhante que João Ubaldo Ribeiro desenvolve a partir da insistência, do esforço e da paciência. Até que tudo parece fazer sentido, mesmo que não o tenha (e é preciso?). As formas quebradas, os engasgos, as interrupções, os caminhos tortuosos levam, afinal, à verdade. A verdade do romance, da vida. (É difícil não querer fazer poesia após ler um tal poema em prosa).

O livro teve grande e merecida repercussão, com entusiasmados elogios de Erico Verissimo, Jorge Amado, Fernando Sabino, prêmios e mais prêmios, comparações a Guimarães Rosa e a Graciliano Ramos e traduções em várias línguas (sendo a tradução em inglês feita pelo próprio autor). Houve edições sucessivas (a minha é a décima, de 1989) e até uma adaptação para o cinema, com roteiro co-escrito pelo romancista, que posto a seguir, junto a uma de suas entrevistas mais recentes (Sargento Getúlio é referenciado em vários momentos). Mas de que tudo isso se não para o livro? É ele que interessa, e espera-se que Getúlio, com sua verborragia, com seus causos e sua macheza, seu orgulho e seus princípios, seus arroubos e paixões, ainda faça muitas viagens em sua curta mas eterna jornada literária.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Macanudo

Todos os amantes das tiras de quadrinhos sabem que nas últimas décadas essa forma de arte sofreu reajustes tremendos. Adaptou-se aos novos tempos e às novas mídias. Como esperar, por exemplo, encontrar nas tiras grandes sagas continuadas, como em Flash Gordon, em Dick Tracy e no Mickey Mouse de Floyd Gottfredson? Isso não existe mais. As histórias longas saem em revistas e livros. As tiras atualmente apresentam quando muito minúsculos arcos narrativos, quase imperceptíveis; são, em sua maioria, pequenos relatos humorísticos (outros gêneros são totalmente marginalizados nas tiras contemporâneas), com piadas fechadas, compreensão imediata e isolada dia a dia. A continuidade foi virtualmente extinta.

Também existem as tiras publicadas diretamente na internet. O humor de menes/memes, as repetições de chavões e frases, o minimalismo técnico, o traço rudimentar/esculachado. O simples humor da frase, do chiste, da ironia, da referência. Tudo isso parece a degradação das tiras, em que a mídia dos quadrinhos surge apenas como uma muleta, nunca um suporte para expressão de ideias, desenvolvimento de algum pensamento. Essas tiras virtuais, em sua maior parte, resumem-se a irrelevantes amontoados de tendências que em dias envelhecerão. Não querendo parecer saudosista, já que saudosismo é um mal subterrâneo terrível, a meu ver essas tiras padecem de qualquer identidade ou importância.
Então por isso é capital reconhecermos alguém como Liniers, que em seu Macanudo vai de encontro a todos esses problemas que tornaram a tira (sobretudo de jornal) uma arte esmaecida, inútil e desnecessária; Macanudo não se ressente das dificuldades dessa arte e faz dos empecilhos escada para alcançar algo novo e criativo e fascinante. Liniers, nosso vizinho argentino, aproveita todas as possibilidades das tiras e cria com isso um mundo inédito que só faz sentido nessa forma de quadrinhos — o que por si só já é algo digno de atenção, pois não é a arte mais impressionante aquela cuja forma é inseparavelmente parte de seu próprio conteúdo? Macanudo é uma bela tira também porque é pensada como tira.

Liniers é um aficcionado por tiras e quadrinhos que resolveu não cometer o "erro" de seus mentores Bill Watterson e Quino: bolar um personagem principal. Que depois de um tempo o artista, até então enamorado e embriagado de amor por sua criação, cansa-se; quer sair por outros caminhos, trabalhar outros rumos, quer dar uma de Angeli e matar Rê Bardosa, quando ela passa a lhe sufocar. Liniers resolveu isto de maneira simples: sua tira não tem um personagem principal. Ou talvez tenha vários. Quem é o protagonista de Macanudo? É tanto Enriqueta, a jovem menina amante da leitura, quanto Fellini, seu filosófico gato; é tanto Olivério, a azeitona aterrorizada, quanto o homem que traduz os títulos de filmes; é tanto o misterioso homem de preto quanto uma infinidade de pinguins e outros animais, crianças, adultos, seres de fantasia ou de realidade. Cada um tem seu espaço, seu momento, seu brilho e sua voz.

O esquema é quase sempre o mesmo rígido esquema das tiras que são produzidas hoje: piadas. Mas o humor de Liniers não se resume à comédia fácil, à reprodução sarcástica do noticiário, os paradoxos comportamentais. Macanudo é capaz de num dia ilustrar o melancólico bucolismo da infância e no dia seguinte apresentar seu autor mudado em coelho (uma de suas marcas) falando sobre seu cotidiano de cartunista, para no dia seguinte zombar dos clichês do cinema, ou brincar com um passado hipotético de Picasso. Em comum a todas as tiras: o delicado traço, as cores sugestivas, a empolgação com o formato das tiras, com a graça das personagens, com a beleza da vida, com tudo que pode fazer bem, animar, alegrar, consolar, inspirar. Utilizando-se de todas as armas possíveis de convencimento e encanto, Liniers é como um diretor de cinema que cria todo um mundo dentro de um enquadramento mais ou menos fixo, não nos deixando nunca duvidar de sua mágica.

E como Macanudo não sai mais nos jornais brasileiros, a opção para ver as novas tiras, diariamente, é acessar seu perfil no Facebook ou este site. E deliciar-se a cada dia com as invencionices de alguém que ama as tiras e faz desse veículo um meio de comunicação realmente memorável

Bônus: um belo documentário sobre Macanudo, Liniers e a arte do argentino e seus quadrinhos, dirigido por Franca Gonzáles.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Grandes animadores: Ward Kimball

Diferentemente de muitas animações, sobretudo contemporâneas, as produções Disney não eram creditadas "exclusivamente" a seus diretores — como ocorre por exemplo na Pixar, onde sabemos quais filmes são de John Lasseter, quais os de Brad Bird etc. A Disney historicamente era um team effort, sendo suas animações bastante "segmentadas", e os estudiosos/admiradores de animação reconhecem suas autorias de maneira também fragmentada: sabemos quem são os animadores de tal ou tal personagem ou cena.

A estratégia geralmente era dividir o filme entre os animadores mais capacitados/talentosos, cada um capitaneando uma criatura do longa. Antigamente houve os nine old men, artistas de confiança de Walt Disney e que o seguiram décadas a fio (alguns até após sua morte), cada um com sua visão pessoal da arte da animação mas todos trabalhando juntos para o melhor resultado no filme. Vendo os features (longas) da Disney hoje, é difícil não reconhecer que Walt legou bem as missões, com cada um dos "nove velhos" agindo no topo de suas interpretações e competências. E nos mitos dessa época, entre a ação desenfreada de Wolfgang Reitherman — que depois virou o chefe do departamento de animação da Disney, quando Walt morreu —, animador de cenas de lutas e animais (a baleia em Pinóquio, o rato em A dama e o vagabundo) e o naturalismo poético de Marc Davis (animador da pin-up Tinker Bell, da delicada Alice e da antológica Cruella de Vil), passando pelos inquietos vilões de Milt Kahl (Edgar, de Aristogatas, Madame Medusa, Shere Khan) e pela dupla clássica Frank Thomas e Ollie Johnston, um nome se destaca pela irreverência e espontaneidade: Ward Kimball.

Ward era o animador das coisas malucas, dos experimentalismos cômicos, da elasticidade dos corpos e rostos. Foi quem desenvolveu o Chapeleiro Louco, o Gato de Cheshire (ambos de Alice no País das Maravilhas), o alucinado gato Lúcifer (de Cinderela), os corvos de Dumbo. Mas talvez seu ápice de criatividade, alcance e expressividade tenha sido justo o personagem mais "certinho" da galeria: o Grilo Falante! Após ter uma de suas cenas favoritas cortada de Branca de Neve e os sete anões, Ward recebeu de Disney a tarefa-compensação de realizar esse grande personagem, quase o co-protagonista do filme do boneco de madeira. Seu Grilo Falante é um assombro, difícil não se encantar com as movimentações, gestos e expressões que o simpático inseto apresenta ao se aquecer do frio, ao interagir com os brinquedos da oficina de Gepeto, ao mostrar-se tímido com a imponente e bela Fada Azul, ao desesperar-se ao ver Pinóquio desrespeitando seus conselhos e enveredando ingenuamente pelo mau caminho. Um trabalho brilhante, que se fosse o único desenvolvido por Ward Kimball já seria o suficiente para eternizá-lo e torná-lo referência para mil animadores a partir de então.

No meio dos anos 1950, Ward Kimball interrompeu sua fecunda colaboração com os longas disneyanos. Fez ainda o professor Ludovico von Pato (Ludwig von Drake), para um programa televisivo, e colaborou em Mary Poppins, um dos maiores clássicos "live action" (entre aspas porque mistura atores reais com atores desenhados, pode-se dizer). A partir de então, com a morte de Disney em 1966, Ward Kimball e a maior parte dos nine old men resolveram se aposentar. Muitos, como Ollie Johnston e o próprio Ward, morreram recentemente, após décadas de inestimáveis serviços à animação. Mr. Kimball morreu em 2002, após cerca de 40 anos fora da Disney.

Ward Kimball, além de seu magnífico histórico como animador, possuía outra paixão: trens! Entusiasta de ferrovias e locomotivas, colecionava miniaturas, estudava seu funcionamento, e chegou a ter realmente um trem a vapor, com uma área específica para sua circulação! Entre os vídeos abaixo colocados, há uma curiosa participação de Kimball no programa de Groucho Marx You bet your life, onde fala um pouco sobre seu trabalho (visivelmente obscuro do grande público, que conhecia muito bem os filmes e personagens mas sabia pouquíssimo dos autores da equipe de Disney), sobre sua paixão por locomotivas e também responde a algumas perguntas do quiz show, incluindo uma sobre... Pinóquio! Além disso, trechos de animações em que ele foi o artista principal por trás do personagem em questão e dois curta-metragens: It's tough to be a bird, realizado em 1969, valeu a Kimball, seu diretor e roteirista, o Oscar; e Escalation, impressionante relato dos transtornos do mundo em 1968, era de transformações com a contracultura colidindo com o belicismo, a Guerra Fria, o Vietnã — é difícil ver nesse curta o mesmo homem por trás de tanta alegria nos filmes Disney, sendo o relato descrente, agressivo, visceral; mas como contradizer esses sentimentos numa época em que a velha mentalidade americana saía, à força, da ordem dia? Percebia-se que os EUA não eram tão invencíveis e nem tão heroicos quanto acreditavam. Ward realizou em três minutos um demonstrativo desse espírito. Porém, não conseguiu desmistificar seu próprio trabalho: Ward Kimball será sempre lembrado por seu rosto bonachão, de grandes óculos de grossas lentes, parecendo ele próprio um de seus divertidos personagens de animação.

Primeira parte de IT'S TOUGH TO BE A BIRD | Segunda parte | Terceira parte

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Bonanza

BONANZA é um dos nomes do faroeste televisivo mais icônicos e lembrados, após décadas de sua exibição original. Foi uma série extremamente longeva, quase quinze anos no ar, com cerca de quatrocentos e trinta (!) episódios. Sua popularidade era incontestável, e mesmo hoje podemos ver como a série ainda tem apelo: além dos inúmeros DVD espalhados em lojas e bancas de jornal, a série é reprisada, de segunda a sexta-feira, no canal brasileiro do TCM. E sua exibição principal se dá no início do horário nobre! Trocando em miúdos, 1/12 da programação diária do TCM é dedicada a Bonanza! Não é um feito pequeno para uma série de mais de cinquenta anos (começou em 1959, durou até 1973).

A verdade é que Bonanza não é esquecível. Fica na memória e faz parte da vida de cada espectador que acompanha ou acompanhou o programa. Como esquecer sua abertura, sua música-tema? Os desenhos dos créditos, que lembram tanto os dime novel, os frontispícios de gibis clássicos? As razões do sucesso da primeira série de faroeste filmada integralmente a cores são simples: suas histórias e seus intérpretes. Bonanza trata de um núcleo de personagens não tão comuns em faroestes: uma família. Trata-se do veterano ex-militar, ex-comerciante e atual latifundiário Ben Cartwright (Lorne Greene) e seus três filhos Joseph, ou "Little Joe" (Michael Landon), Eric, ou "Hoss" (Dan Blocker), e Adam (Pernell Roberts). A variedade impressiona: cada um é filho de uma mulher diferente, as três falecidas esposas de Ben. E cada um possui distinta personalidade: Hoss é o gentil grandalhão, de coração afável e modos amigáveis; Adam é o que estudou no Leste e por isso é um pouco mais arrogante e sério; Little Joe é o impulso da juventude, o inconsequente e briguento. Mas todos se parecem com Ben quando devem ajudar alguém, trabalhar juntos, resolver algum problema.

No rancho Ponderosa, os quatro vivem aventuras de tons diversos: às vezes estão envolvidos em algum problema grave e com risco de morte ou outro infortúnio, às vezes cortejam alguma mulher e tentam estabilizar um relacionamento, às vezes divertem-se em planos, esquemas e confusões cômicas. O seriado não se concentra em nenhum personagem (ainda que evidentemente Ben una tudo e todos), e em nenhuma saga específica. São tramas fechadas e os Cartwrights vão seguindo dia após dia sua vida cotidiana.

Apesar de não haver coadjuvantes fixos, por a ação ser voltada aos Cartwrights e a Ponderosa, algumas figuras apareciam com frequência: Candy, o faz-tudo da fazenda (praticamente o "quarto irmão" da família); o xerife Roy Coffe, envelhecido mas sagaz defensor da lei; Clem, o outro braço da lei; Hop Sing, o chinês imigrante que é o cozinheiro de Ben etc. Esse reforço era necessário uma vez que, por as temporadas do programa serem longas, nem sempre todos os atores protagonistas estavam disponíveis para todas os episódios. Há, portanto, uma mistura não só de episódios cômicos, de aventura, de drama, de romance, de ação, mas também de episódios em que Hoss se destacava, ou Ben, ou Adam, ou Little Joe, apesar de os esforços serem focados para apresentar sempre todos eles unidos e interagindo.

Adam, por sinal, saiu da série após a sexta temporada. Insatisfeito com os roteiros, alegadamente, Pernell Roberts deixou os Cartwrights com a triste missão de cavalgar apenas em três, e seu Adam foi, como dito em alguns episódios, viajar, comunicando-se com sua família por cartas. A série aguentou bem: mais da metade dos episódios ainda seria produzida. Candy foi um dos esforços de substituição para Adam, e mais ao fim da série um jovenzinho foi adotado por Ben. E além desses coadjuvantes onipresentes, havia larga profusão de atores convidados, os "guest stars". Nos primeiros anos da série era comum ver gente que estava começando no showbusiness e que ainda ficaria muito famosa: Jack Lord, James Coburn, Lee Marvin, Gena Rowlads, Charles Bronson... Além desses, muitos outros coadjuvantes e figurantes apareciam por episódio, tornando o microcosmo de Virgina City (a cidade contígua a Ponderosa) um ambiente bastante crível e aprofundado — tentando a todo custo romper a "inverossimilhança" dessas séries, onde num episódio aparecia um ator (que apenas apareceria naquele episódio) que tal ou tal personagem recebia como um grande amigo, por exemplo; ora, se era um grande amigo por que nunca apareceu antes e nunca apareceria depois?

A série foi se mantendo durante mais de uma década, quase sempre com audiência respeitável e público fiel. Mas o natural desgaste de uma produção tão extensa (em anos), a decadência do faroeste americano (com a chegada do spaghetti) e também a prematura morte de Dan Blocker (Hoss chegou a morrer também na série, num recurso incomum para a época) precipitaram seu fim. Michael Landon engatou logo Os pioneiros — onde agora era ele o patriarca de uma família —, Lorne Greene foi para o espaço em Battlestar Gallactica, Pernell Roberts foi ser médico no spin-off de MASH intitulado Trapper John, M.D., a vida seguia adiante sem Bonanza. Aliás, falando no MASH de Robert Altman, uma curiosidade: esse grande cineasta dirigiu muitos episódios desta nossa série de faroeste, e ficou tão amigo de Dan Blocker que, quando de sua morte, correu logo para dedicar ao amigo um de seus mais aclamados clássicos: The long goodbye, mais uma aventura de Philip Marlowe (desta vez encarnado por Eliott Gould). Passaram por Bonanza também: William Witney, Jacques Torneur, Tay Garnett. Michael Landon se importava tanto com a série que dirigiu e escreveu em vários momentos, também.

Para atestar a qualidade de Bonanza basta não se deixar levar pelo preconceito e achar que é uma série embolorada e desinteressante hoje. Em suas histórias vemos muitos elementos progressistas que a tornam muito atual e pertinente: direitos indígenas, denúncia da intransigência do exército, igualdade racial, luta pelo feminismo. Há em quase todas as personagens e tramas um grande desejo por compreensão entre os povos, por paz entre as nações, amizade entre as pessoas. São alguns dos motivos que tornam o seriado um ícone, que ainda hoje emociona e encanta. Conhecer os Cartwrights não é apenas deparar com a história da colonização norte-americana, seus problemas e problemática, e também não é apenas adentrar a história da televisão e seus seriados historicamente bem sucedidos: é fazer amigos, estar com eles na luxuosa e confortável casa de Ponderosa, tentar junto a eles corrigir injustiças e participar, como um Cartwright, daquela vida, respirar aquela poeira nas cavalgadas e sentir o sol nas costas durante as tardes tranquilas (ou não) de Virgina City.

 A seguir, duas aberturas de Bonanza, com arranjos e elenco fixo modificados (respectivamente, primeira e décima temporada):

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Zé Carioca 70 anos

Já disse anteriormente que sou leitor de quadrinhos Disney desde a infância. Naquela época eu era um fã bem mais ávido por Zé Carioca do que nos anos seguintes, quando deixei o papagaio um pouco de lado. A razão é simples: eu já tinha a maior parte das histórias, pois nos últimos dez anos não houve nenhuma história inédita da ave malandra, salvo uma outra homenagem específica.

Então virei-me de vez para os patos e para os ratos. Além de um material extremamente mais abundante — afinal, as histórias do Zé são quase todas brasileiras, enquanto que os outros personagens são produzidos por vários países —, Donald, Patinhas, Mickey, Pateta e companhia nunca correram o risco de esgotarem suas tramas novas e engessarem suas revistas com repetições infindáveis e desesperadoras (como ocorreu com o Zé na triste última década).

A razão para o Zé sofrer nessa negligente situação é um amálgama de várias infelicidades simultâneas, que fizeram os quadrinhos Disney brasileiros passarem por reformulações iminentes visando a revertar sua estagnação e virtual cancelamento; as revistas acabaram sendo preservadas, com um acréscimo expressivo nas vendas dos últimos anos, mas encerrou-se de vez a produção artística de histórias feitas aqui. Até que ultimamente surgiu uma esperança.

Mas neste decênio Zé Carioca passou por maus bocados. O que é mesmo deprimente, considerando todo o (invejável) histórico desse nosso "conterrâneo americano", sua vida cheia de louvores e seu talento em entreter e divertir a todos por décadas a fio.

Afinal, quem é o  Zé Carioca? O papagaio verde foi criado pela equipe de Walt Disney em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, com os planos de aproximação dos ianques desejosos de expandir sua política da boa vizinhança e com isso aumentar seus mercados (a Europa, lembremos, estava bloqueada por Hitler e demais forças anti-EUA). Zé surgiu já em grande estilo, no clássico (animated feature, ou longa animado) Alô, amigos, dançando a "Aquarela do Brasil" com o Pato Donald, ensinando o desajeitado pato a sambar, ciceroneando-o pelo Rio. Zé fez tanto sucesso que apareceu em mais dois (!) clássicos do estúdio, Você já foi à Bahia? (onde forma um inesquecível trio com os caballeros Donald e Panchito) e Tempo de melodia. Para se ter uma ideia do que o Zé representa na história da animação Disney, ele aparece em tantos longas do cânone oficial disneyano quanto... Mickey Mouse! Com um detalhe: Mickey só emplacou seu terceiro clássico em 2000, com o segundo Fantasia, enquanto Zé já na década de sua criação saía na frente com suas três participações.

Como em muitos casos, do cinema para os quadrinhos foi um pulo: e Zé invade as páginas americanas dos jornais, por cerca de dois anos, tendo até mesmo o futuro "mickeyano" Paul Murry desenhando suas tiras — publicadas pela Editora Abril há algumas semanas, pela primeira vez no mundo em sua integralidade e num único volume. Essas primeiras aparições do Zé sequencial são simplesmente hilárias, com golpes e mentiras desenfreados e muito inteligentemente encadeados; só é de se estranhar como Zé Carioca não infartava após todas as vezes em que temeu ser desmascarado, pois foram inúmeras e constantes!

Alguns veem em Zé Carioca um estereótipo pejorativo do brasileiro, por sua folga, sua preguiça, sua vadiagem, sua manha, sua fissura com samba, futebol e feijoada. Mas personagem menos ofensivo não há: criatura simpática, inteligente e "gente boa" está aí. Quanto aos traços negativos que apresenta, ora, nunca se pretendeu afirmar que todos os brasileiros são assim: apenas o Zé é que é! Podemos ver nos dois volumes comemorativos de suas sete décadas, lançados pela Abril em outubro e novembro, uma grande variedade de traços de seu caráter, e quem o acusa por um ou dois deles só demonstra o evidente: não conhece a carreira do Zé em longas décadas de aperfeiçoamento.


A relação do Zé com a Abril é muito importante, pois foi sob o selo (e a infraestrutura) dessa casa que todas as histórias brasileiras do Zé (que são a grossa maioria do que se fez com o papagaio) foram desenvolvidas e lançadas. Então não foi difícil para eles selecionarem alguns momentos-chave na vida do penoso, como o surgimento de seu alter-ego de herói (Morcego Verde, abertamente inspirado no Morcego Vermelho do Peninha, também criação brasileira), suas fugas da Anacozeca (Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca), sua relação com a namorada (Rosinha, periquita milionária filha do tucano Rocha Vaz), com os amigos (sobretudo o urubu Nestor, o pato Afonsinho e o sui generis [provavelmente um cachorro] Pedrão Feijoada), com os sobrinhos (Zico e Zeca, sendo este também um herói alternativo: o Paladino Implacável), os primos (Zé Paulista, Zé Queijinho, Zé Jandaia, Zé Baiano...), suas aventuras com os compañeros Donald e Panchito... Sobre esse trio, os volumes estão mesmo preciosos: há uma trama inédita italiana, uma releitura de Você já foi à Bahia? feita por ninguém menos que Walt Kelly e as duas aventuras (no maior sentido do termo) que Keno Don Rosa fez com os três amigos; sim, até mesmo o mítico Don Rosa, para quem apenas Carl Barks fez quadrinhos Disney dignos de atenção, rendeu-se ao papagaio e prestou seu tributo (ainda que ignorando a "cronologia" brasileira e seguindo o molde do Zé americano dos primórdios). Zé Carioca mostrou-se um brasileiro dos mais universais! Para quem quiser conferir a seleção de histórias, prévias e comentários dos leitores, basta conferir no fórum Calisota os tópicos do primeiro e do segundo volumes.

Como já dito, após uma década obscura, Zé Carioca aos poucos tem reaparecido sob holofotes: os dois especiais estão sendo bem acolhidos na rede e nas bancas; de Ruy Castro a comentadores anônimos, muitos deram os parabéns por seu jubileu de vinho; e, mais importante que tudo, no segundo volume do especial já temos um aperitivo do renascimento de Zé nos quadrinhos brasileiros, com duas histórias completamente inéditas — a produção retoma em poucos meses, segundo anunciado. Eu e o colega Thiago Machuca, do Portallos, aproveitamos a ocasião para uma rápida entrevista (ou antes um bate-papo) com Fernando Ventura, um dos principais responsáveis pela nova sobrevida do personagem e grande pesquisador de artes Disney (colaborando ele mesmo com a colorização, desenho e roteiro de muitas histórias). Fernando sintetizou e atualizou a conversa e mandou-me ainda uma exclusiva página de um roteiro seu para uma história ainda inédita. Esperamos com isso prestar nossas homenagens a esse grande personagem Disney que é Zé Carioca, e também incentivar um pouco o necessário reconhecimento da importância desses incríveis 70 anos — além de torcer para que a nova produção brasileira chegue com força e nunca mais seja interrompida!

ENTREVISTA COM FERNANDO VENTURA

SOBRE O RETORNO DA PRODUÇÃO

Filipe: A retomada da produção brasileira de Zé Carioca coincidiu com os 70 anos do papagaio. A Abril apressou ou atrasou essa produção para lançá-la na data comemorativa? Os artistas envolvidos receberam algum comando específico ou a volta do Zé já estava sendo planejada independentemente de qualquer aniversário?

Fernando: Desde o fim da produção (de quadrinhos Disney no Brasil), em 2000, eu escrevi e/ou desenhei, por iniciativa própria, HQs Disney inéditas, no intervalo de outros trabalhos (foram 10 histórias, ou 98 páginas)! A intenção era, claro, tentar convencer os editores a retomar a produção local e criar histórias com personagens que eu ainda não tinha tido oportunidade de desenhar. Não é fácil produzir uma HQ sem perspectiva de publicação, mas sempre tive esperança que um dia o contexto editorial permitiria o retorno da produção. Este cenário começou a se esboçar favorável novamente a pouco mais de um ano. Surgiu então o projeto de homenagear os 70 anos do Zé Carioca e, ao mesmo tempo, retomar a produção nacional com duas HQs inéditas. Os editores me pediram uma história e indiquei, para a outra HQ, o Arthur Faria Jr. e o Luiz Podavin, excelentes autores também saudosos da produção Disney nacional.

SOBRE AS TIRAS AMERICANAS DA DÉCADA DE 1940

Fernando: Paulo Maffia [o editor dos quadrinhos Disney no Brasil] me ligou e disse "veja se você consegue algum material raro para publicar no especial"! O que poderia ser mais raro do que as páginas dominicais do Zé Carioca? Foi preciso três coleções, localizadas em três países diferentes, para que todas as 104 páginas pudessem ser republicadas. Foram 6 meses de produção, desde a escolha das melhores matrizes até o letreiramento e revisão. Meu papel foi traduzir, colorir e supervisionar a restauração ou arte-final das tiras que não existiam em matrizes preto & branco. Essa etapa foi feita pelo David Gerstein, Shelley Plegger e José Wilson Magalhães. Quanto às cores, fiéis ao original, essa era uma linha que eu já vinha desenvolvendo desde a publicação de "As Obras Completas de Carl Barks". Foi somente durante a tradução que percebi que não apenas as últimas 5 gags eram inéditas nas publicações da Abril, mas que várias outras páginas haviam sido puladas, editadas, ou mesmo censuradas, nas publicações anteriores.

SOBRE HISTÓRIAS NOVAS E EXPORTAÇÃO

Filipe: O "esforço de exportação" comporta fazer histórias menos 'regionais' ou seria tornar a brasilidade do Zé tão divertida e especial que não se veria problemas em mandá-la para outros países assim como a fazemos aqui, sem alternar nada substancialmente?

Thiago: Por que a obsessão por bonés? Nota-se um uso perturbador deles nos anos 90, mas isso não se reflete tanto assim nos dias de hoje. E tanto na HQ da torneira quanto na das plantas [as duas inéditas do segundo volume do especial], ali estão os personagens com bonés. Fala-se em variedade, mas é fogo ver um personagem como o Pedrão de boné em sua nova HQ, e ainda um boné cor de rosa! Deveriam ter um cuidado maior a esses detalhes, até mesmo nas cores. Sacanagem colocar um boné cor de rosa no Pedrão... Existem outros tipos de chapéus, sabe? O chapéu Panamá ficaria perfeito no Zé e é algo tanto nostálgico como moderno nesta geração.

 Fernando: Enquanto eu trabalhava nas tiras, lembrei aos editores sobre as minhas HQs engavetadas. Por que não aproveitá-las? Deste modo pude me concentrar em terminar, com o cuidado necessário, a tradução e colorização dos tablóides. Foram tomados vários cuidados, como  a produção de uma guia nova de roteiros (feita a meu pedido pela Cecília Magalhães, que trabalhou comigo em Gemini 8), novas técnicas de escaneamento e colorização em formato americano. Deste modo as HQs podem ser republicadas em formato maior e exportadas. Quanto ao "boné cor-de-rosa" do Pedrão, na HQ das "plantas", era pra fazer contraste com as outras cores! E não é rosa, é magenta! Ah, ah, ah!
[Nota: Confira a cor do boné aqui.]

SOBRE O VISUAL DA TURMA

Filipe: Esta semana [esta entrevista tem alguns meses] terminei a leitura dos dois romances que inspiraram o filme "O caldeirão mágico", escritos por Lloyd Alexander, e assisti ao longa novamente, só o havia visto na infância. Esse filme teve um problema incrível desde a concepção até o lançamento, que foi basicamente o seguinte: o material foi considerado muito "dark" (impróprio para crianças) e o Katzenberger, então chefe da Disney, mandou cortar muitos minutos dele após reações negativas de uma plateia teste... A mutilação resultou num filme esquisito, incoerente e problemático, que deu um enorme prejuízo ao estúdio. O que eu queria com todo esse rodeio é perguntar algo simples: isso pode acontecer com os quadrinhos? De repente algum personagem, estilo, autor ou tendência é testado e violentamente rejeitado, a Abril ou mesmo a Disney pode interferir no aspecto artístico, de criação dessas obras? Nós lembramos do que houve com o Canini [artista brasileiro demitido pela Disney americana ao fazer um Zé Carioca "favelado" e com um traço diferente e autoral], mas e como funciona hoje? A Disney parece totalmente desinteressada pelos quadrinhos, ainda mais brasileiros; essa impressão é falsa ou aqui se tem liberdade de ação com os personagens disneyanos? Vocês devem seguir alguma "cartilha" vinda da matriz americana, com características imutáveis das condições físicas, psicológicas etc. das personagens?

Thiago: A cartilha da Disney diz quantos anos o Zé, Nestor, Pedrão e companhia devem ter? Personagens como o Donald ou Mickey passam a ideia de que já são adultos, mas às vezes, com esse Zé Carioca molecão, de boné e tênis, a impressão que tenho é a de que o personagem seria bem mais jovem. Esse visual dos anos 90, chamado de "Sérgio Malandro" por alguns, é um dos que mais se torcia para não retornarem, e foi ele que voltou. E agora? Vai ficar assim mesmo ou o Zé vai mudar para algo novo após as primeiras historias inéditas?

Fernando: Como já foi divulgado, foi dado aos artistas a liberdade para trabalhar com o visual dos personagens que preferir e que for melhor conveniente ao roteiro. Eu considero essa decisão muito acertada, pois permite aos roteiristas e desenhistas lidar com a questão de forma criativa. Em tempo, é preciso desmistificar a impressão de alguns leitores de que o Zé de boné e tênis "não deu certo". Como diria o Hércules, "tinha até bonequinho!"!. A iniciativa da Redibra, então representante Disney no Brasil, não foi imposta para a editora. Pelo contrário: foi aceita de bom grado pelos editores da época porque eles sabiam que isso renovaria o personagem, tanto que a presença do Zé Carioca, em licenciamento, exportação e mídias diversas, foi muito mais significativa nesse período do que na década passada. Outro ponto confuso é que as histórias do ano 2000 representam "o fim do estúdio nacional". Na realidade o estúdio já havia sido desmantelado em 1997. Foi justamente o lançamento dos gibis de R$ 1,00, em 1999, que permitiram à Abril voltar a produzir, ainda que por pouco tempo, novas HQs do Zé, Patos e Mickey, agora com artistas freelancers e estúdios terceirizados.

SOBRE O FUTURO

Thiago: A produção do Zé vai voltar apenas com HQs curtas? Alguma chance de vermos histórias maiores com o personagem? Especiais e paródias como era tão comum nos anos 90 (o gibi dos Trapalhões era craque nisso)?

Filipe: Só o Zé dará as caras na retomada da produção nacional? Como se darão as etapas desse ressurgimento? Como ficará a mensal do Zé e haverá a entrada de novos artistas nesta fase eufórica de renascimento?

Fernando: Eu acredito que com o aumento de vendas tudo pode acontecer, como mais histórias inéditas brasileiras de outros personagens e mini-séries. Eu adoraria bolar novas HQs da Turma da Pata Lee, por exemplo. Com continuidade tudo pode acontecer!